Vazamento do Smart Sampa pode ajudar criminosos a planejar sequestros e atentados, alerta especialista

  • 21/10/2026
(Foto: Reprodução)
Câmeras Smart Sampa TV TEM/Reprodução O vazamento de dados do Smart Sampa, sistema de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial da Prefeitura de São Paulo, pode facilitar a atuação de criminosos, permitindo que eles acompanhem a movimentação de possíveis vítimas, identifiquem a localização de viaturas policiais e até planejem sequestros e atentados. O alerta é do professor de segurança pública da Fundação Getulio Vargas (FGV) Rafael Alcadipani, que defende uma auditoria independente na plataforma. A Prefeitura de São Paulo investiga o vazamento de dados sigilosos do Smart Sampa, sistema de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial da gestão Ricardo Nunes (MDB). A administração municipal atribui o episódio a um agente de segurança, que foi afastado do cargo, e nega que tenha ocorrido uma falha de segurança na plataforma. 'Sistema é absolutamente seguro', diz Nunes após vazamento de dados do Smart Sampa A notícia foi revelada pelo UOL nesta terça-feira (20). De acordo com a apuração, informações sigilosas do sistema ficaram expostas na internet por cerca de 11 meses, permitindo o acesso indevido a imagens de mais de 58 mil câmeras conectadas à plataforma, incluindo equipamentos instalados em ruas, escolas, creches e hospitais da capital paulista. Em entrevista ao g1, Alcadipani afirmou que o episódio revela indícios de fragilidade nos mecanismos de controle de acesso às imagens captadas pelo sistema, uma das principais apostas da gestão Ricardo Nunes (MDB) na área de segurança pública. "O Smart Sampa é uma ferramenta poderosa. Ele mostra a movimentação de pessoas em uma cidade grande como São Paulo. Ao que tudo indica, não havia um controle de quem era capaz de acessar essas imagens. Pelo menos, os controles a respeito do acesso eram muito frouxos." O especialista explica que o acesso indevido a essas informações pode comprometer a segurança de cidadãos, policiais e autoridades. "Um sequestrador poderia obter informações sobre a vítima que deseja sequestrar; um criminoso poderia saber onde estão as viaturas policiais no momento em que pretende cometer o crime; e alguém interessado em cometer um atentado contra uma autoridade poderia descobrir onde essa autoridade está." Segundo Alcadipani, o risco é que uma ferramenta desenvolvida para auxiliar o combate à criminalidade acabe sendo utilizada para facilitar a prática de crimes. Especialista cobra auditoria independente Para o professor da FGV, o caso exige uma revisão urgente dos mecanismos de segurança e uma investigação para identificar quem teve acesso às informações e se os dados vazados foram utilizados de maneira criminosa. Alcadipani também questionou o fato de a exposição dos dados ter sido revelada pela imprensa, e não pelos mecanismos internos de fiscalização da prefeitura. "Foi um caso descoberto pela imprensa, e não pelos controles internos da prefeitura. Isso mostra que a vulnerabilidade é muito grande, se um servidor conseguiu vazar essas informações." O especialista defende que uma auditoria independente seja realizada para avaliar a segurança do Smart Sampa e identificar possíveis acessos não autorizados. "O que precisamos saber agora é quem mais está acessando esses dados. É necessário fazer uma auditoria independente nesse sistema e estabelecer um controle mais restrito do acesso a essas informações." Entre as medidas recomendadas estão a restrição do número de pessoas autorizadas a consultar as imagens e o monitoramento permanente dos acessos realizados à plataforma. Segundo Alcadipani, os responsáveis pelo sistema precisam ter condições de identificar, a qualquer momento, quem está consultando as informações e com qual finalidade. "O privilégio de acesso deve ficar restrito ao menor número possível de pessoas, apenas àquelas que utilizarão as informações para trabalhar." Prefeitura nega falha de segurança Entre os equipamentos que tiveram imagens acessíveis estavam câmeras instaladas em ruas, escolas, creches e hospitais da capital paulista. A Prefeitura de São Paulo negou falhas de segurança no sistema e atribuiu o vazamento a um agente de segurança, que foi identificado e afastado do cargo. Segundo a administração municipal, a conduta está sendo investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana (GCM). A gestão Ricardo Nunes classificou o episódio como um ato criminoso individual e afirmou que não houve uso indevido da plataforma. A prefeitura também informou que retirou do ar o repositório de dados disponibilizado ilegalmente na internet e reforçou os mecanismos de segurança, com senhas exclusivas e autenticação em dois fatores. Segundo a administração municipal, o Smart Sampa é submetido à fiscalização do Tribunal de Contas do Município (TCM), conta com consultoria especializada em governança e privacidade de dados e encaminha relatórios semestrais de transparência ao Ministério Público. Sistema custa cerca de R$ 10 milhões por mês São Paulo assina contrato hoje com empresa de vigilância vencedora do Smart Sampa O Smart Sampa foi lançado em 2024 como uma das principais apostas da gestão Ricardo Nunes para a segurança pública da capital paulista. A central de monitoramento, inaugurada em julho daquele ano, funciona 24 horas por dia e recebe imagens de câmeras públicas e privadas integradas ao programa. O investimento mensal é de cerca de R$ 10 milhões. A tecnologia utiliza inteligência artificial para comparar imagens de pessoas captadas pelas câmeras com bases oficiais de procurados pela Justiça e desaparecidos. Também permite identificar veículos roubados, furtados ou com suspeita de clonagem de placas. Em junho deste ano, a prefeitura lançou o aplicativo Smart Sampa Cidadão, que permite aos moradores colaborar com a identificação de veículos com restrições por meio da câmera do próprio celular. Na mesma ocasião, Ricardo Nunes anunciou a contratação de um helicóptero equipado com tecnologia de monitoramento, ao custo estimado de R$ 2 milhões por mês. Segundo o balanço mais recente divulgado pela prefeitura, o Smart Sampa já contribuiu para a captura de 3.628 foragidos da Justiça e a localização de 284 pessoas desaparecidas. Estudo questionou eficácia do Smart Sampa Aposta de Nunes, câmeras do Smart Sampa não inibem furtos e roubos de celulares em Pinheiros; região lidera casos em SP Apesar dos resultados divulgados pela prefeitura, a eficácia do Smart Sampa na redução da criminalidade já foi questionada por pesquisadores. Um estudo do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), intitulado "Smart Sampa vigia, mas não protege", concluiu que a instalação do sistema não produziu redução estatisticamente significativa nas taxas de furtos, roubos e homicídios na capital paulista. A pesquisa analisou dados entre março de 2024 e abril de 2025, comparando os indicadores de São Paulo com os de outros municípios do estado que não haviam adotado o programa. O levantamento também não identificou aumento significativo na produtividade policial, medida pelo número de prisões em flagrante e pelo cumprimento de mandados judiciais. O estudo também revisita erros de identificação cometidos pelo sistema de reconhecimento facial nos primeiros meses de 2025. Entre os casos relatados: Um policial militar fardado confundido com foragido; Um jardineiro voluntário de uma UBS preso injustamente; Uma mulher grávida que teve parto prematuro após ser abordada pelo sistema. Segundo a pesquisa, os erros ocorreram por falhas nos algoritmos de reconhecimento facial, que tendem a errar mais com pessoas negras, e por bancos de dados desatualizados, com mandados que já deveriam ter sido retirados do sistema. O estudo também enfatiza que esses sistemas carregam potencial de viés racial. Uma pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), de 2018, mostrou que sistemas de reconhecimento facial erravam até 34% ao identificar mulheres negras, mas apenas 1% com homens brancos. A prefeitura contestou a metodologia e as conclusões do estudo. Segundo a gestão municipal, a pesquisa fez comparações inadequadas entre a capital e cidades com características sociais, econômicas e criminais diferentes. Em outra reportagem, o g1 mostrou que a região de Pinheiros, na Zona Oeste da capital, continuava registrando uma sequência de roubos e furtos de celulares, apesar da presença de milhares de câmeras integradas aos sistemas de monitoramento. Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) apontaram que 2.156 celulares foram roubados ou furtados na área atendida pela delegacia de Pinheiros no primeiro trimestre de 2026, o equivalente a 24 aparelhos por dia. Programa inspirou proposta de Flávio Bolsonaro O Smart Sampa também se tornou referência para uma das principais propostas de segurança pública do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Durante a campanha eleitoral, o senador anunciou a intenção de criar o Smart Brasil, um sistema nacional de monitoramento por câmeras de segurança e reconhecimento facial, integrado a bancos de dados criminais. A proposta, anteriormente chamada de Muralha Brasileira, consta do plano de governo apresentado à Justiça Eleitoral e prevê a instalação de mais de 1 milhão de câmeras em parceria com estados e municípios. A proposta pretende ampliar para todo o país um modelo de monitoramento semelhante ao utilizado pela Prefeitura de São Paulo.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/10/21/vazamento-do-smart-sampa-pode-ajudar-criminosos-a-planejar-sequestros-e-atentados-alerta-especialista.ghtml


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