Tanquã: como barragem no Tietê criou 'minipantanal' paulista com área maior que Paris e rica em biodiversidade
10/05/2026
(Foto: Reprodução) Tanquã: como barragem no Tietê criou 'minipantanal' paulista com área maior que Paris
No interior de São Paulo, uma área alagada se tornou um santuário ecológico que abriga uma grande biodiversidade. O local, chamado de Tanquã, é conhecido como 'minipantanal paulista' por conta da semelhança com a maior planície alagável contínua do mundo.
Mas, ao contrário do Pantanal, o Tanquã não é natural, mas resultado "inesperado" da construção de uma barragem para a Usina Hidrelétrica de Barra Bonita (SP), no Rio Tietê, em 1960.
O enchimento da barragem, em 1963, represou o Tietê e diminuiu a velocidade das águas do rio Piracicaba, onde se formou a área alagada que deu origem ao Tanquã.
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Trecho do Tanquã em Piracicaba (SP)
Rodrigo Alves
Hoje, o Tanquã abriga centenas de espécies de aves e peixes, o que confere potencial turístico à região. A localização no interior do estado mais industrial do país, no entanto, cobra seu preço. Em 2024, um despejo irregular de resíduos industriais matou cerca de 253 mil peixes.
🚤O g1 percorreu, de barco, o santuário ecológico para conhecer a riqueza ambiental e montou um raio-x do local:
abrange seis cidades de São Paulo
área de 140,5 km², equivalente a quase 20 mil campos de futebol padrão Fifa
cerca de 69% da área é formada por corpos d’água
44% maior do que Vitória (ES) e 33% maior que Paris
abriga 435 espécies de animais e 361 espécies vegetais
Infográfico - Raio X detalha dimensão e biodiversidade do Tanquã, o minipantanal paulista
Arte/g1
Criação: o remanso
Usina Hidrelétrica de Barra Bonita
Prefeitura de Barra Bonita
No encontro das águas do rio Piracicaba com as águas da represa no Tietê ocorreu o fenômeno chamado de "remanso", caracterizado pela diminuição da velocidade da água e pelo acúmulo de sedimentos. É como se a água do Piracicaba 'voltasse', já que a do Tietê está represada.
Esse processo deu origem a uma ampla área alagável, rica em biodiversididade, e com lagoas, meandros e canais.
A explicação é do professor Flávio Betin Gandara, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), de Piracicaba (SP).
"No caso da barragem de Barra do Bonita, teve impactos negativos, teve muita floresta que foi alagada, mas teve esse impacto positivo do Tanquã, que na época nem foi pensado que isso ia acontecer. Não se levantou a possibilidade que isso aconteceria, mas ficou claro que foi um impacto positivo".
Outros pontos negativos indicados pelo professor são a redução de solos férteis e o deslocamento de animais e moradores para a construção da barragem.
Anísio Evangelista, de 95 anos, foi para o Tanquã antes da área alagada existir. Ele foi trabalhar no corte das florestas para a construção da barragem. Depois do trabalho, fixou moradia.
"A barragem vinha vindo devagar. É uma coisa muito grande, não enche de uma vez, veio vindo devagar, devagar, e devagar até chegar aqui", conta o aposentado.
Tanquã maior que Paris
Lagoa no Tanquã
Rodrigo Alves
O Tanquã serve de berçário para peixes, abriga 290 espécies de aves e é moradia de famílias que vivem da pesca.
O local também atrai turistas do Brasil e estrangeiros em busca de ecoturismo e observação de aves (saiba mais abaixo).
Em 2018, o Tanquã foi reconhecido como Área de Proteção Ambiental (APA), com 140,5 km² — o equivalente a quase 20 mil campos de futebol padrão Fifa. Cerca de 69% da área é formada por corpos d’água.
O Plano de Manejo da APA do Tanquã catalogou 290 espécies de aves, 89 de peixes, 25 de anfíbios, 19 de mamíferos e 12 de répteis e 361 espécies de vegetais na região.
A APA do Tanquã se estende por seis municípios: Anhembi (SP), Botucatu (SP), Dois Córregos (SP), Piracicaba, Santa Maria da Serra (SP) e São Pedro (SP). O território inclui trecho do curso do rio Piracicaba, áreas de várzea, vegetação nativa e o reservatório de Barra Bonita.
Além disso, o local é 44% maior do que Vitória (ES), menor capital brasileira, e 33% maior que Paris, na França.
APA do Tanquã em 2026, sendo o ponto no canto inferior direito o trecho em que fica a vila de pescadores do Tanquã em Piracicaba (SP)
Google Maps/Reprodução
Ecoturismo
Turistas de diversas partes do mundo, principalmente da América do Norte, percorrem o Tanquã para praticar a observação de aves (birdwatching), hobby de identificar, fotografar e registrar aves no habitat natural.
O guia de turismo Demis Bucci, de 42 anos, se dedica a essa atividade há 15 anos e explicou que a escolha pelo minipantanal paulista envolve fatores como:
Proximidade com a capital de São Paulo
Semelhança com o Pantanal
Presença de espécies raras de aves, como marrecos, patos, saracuras e sanãs-amarela
“Observação de aves é um hobby que eles [estrangeiros] levam muito a sério lá fora, é como se fosse torcer com um time de futebol [...] e tem algumas espécies que não são muito fáceis de ver e ali você vê de maneira mais fácil. Essas espécies-chave fazem a gente se deslocar até o Tanquã”, conta o guia.
Ivanildo Pereira, barqueiro no Tanquã
Yasmin Moscoski/g1
Os guias e os turistas contam com o trabalho de barqueiros como Ivanildo Pereira, de 53 anos, que faz do ecoturismo e da pesca o ganha-pão.
Ivanildo é um "ornitólogo" por natureza. Está ali há mais de duas décadas e reconhece de longe as grandes e pequenas aves que atraem os observadores. É ele quem coloca gasolina no barco, colete nos turistas e pilota o passeio que pode durar de uma a três horas.
Segundo Ivanildo, o período entre agosto a fevereiro é o mais procurado do ano pelos turistas que buscam observar aves migratórias.
Os pequenos na imensidão
Tanquã, em Piracicaba, é conhecido como minipantanal e se tornou APA em 2018
Katiucia Medeiros
O Tanquã conta com algumas vilas de pescadores em diversas cidades. A que o Ivanildo mora é do lado piracicabano.
Cerca de 12 famílias vivem lá. O número já foi maior, segundo o barqueiro, mas vinha caindo ao longo dos anos e foi acelerado após a mortandade de mais de 253 mil peixes, em junho de 2024.
Uma usina de cana-de-açúcar foi apontada como responsável pelo despejo irregular de resíduos que causou o dano ambiental.
"Alguns foram para a cidade, para sítios, fazenda... mas o impacto da mortalidade prejudicou bastante os moradores [...] Os que moram aqui ainda pescam, mas não tem aquela quantidade [de peixe] de antes. Quando fecha a pesca, alguns vão trabalhar na roça. Mas a maioria da renda é a pesca", conta o barqueiro.
Desde 2025, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) está em tratativas, ainda sem sucesso, com a Usina São José para reparar os danos ambientais e indenizar os pescadores afetados.
Embora a companhia negue a culpa direta e aponte problemas históricos de poluição na região, ela participa das tratativas para converter penalidades em ações de recuperação.
Faixa branca em meio à vegetação é formada por milhares de peixes mortos após descarga de poluente no Rio Piracicaba
Jefferson Souza/ EPTV
Como chegar até o Tanquã
O g1 foi até o local e fez passeio de barco durante uma hora. O dia estava nublado, mas os passeios são suspensos em caso de chuva. É possível ir por conta própria, mas o serviço de guias e agências especializadas em ecoturismo pode tornar a visita mais proveitosa para conhecer as lagoas, trilhas e a área navegável.
Apesar de parte do Tanquã ser território de Piracicaba, o local fica há uma hora de carro partindo do centro da cidade. Há um bar na vila de pescadores, que é de fácil acesso, mas o ambiente carece de estadias para turistas.
O guia de turismo Demis Bucci contou que é comum que profissionais façam roteiros próprios, que podem incluir o deslocamento até o Tanquã, passeios na região e até estadia em Anhembi, centro urbano mais próximo da vila.
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