Relatório identifica milhares de resultados atípicos no Provão Paulista, que seleciona para universidades públicas

  • 04/09/2026
(Foto: Reprodução)
Provão Paulista SP sendo aplicado em SP Seduc-SP/Arquivo Uma análise dos resultados das três primeiras edições do Provão Paulista aponta a ocorrência de possíveis fraudes de natureza sistêmica nas provas realizadas. O estudo identificou milhares de desempenhos considerados estatisticamente atípicos entre estudantes da rede estadual de São Paulo, com concentração em determinadas escolas e regiões do estado, em 2024 e 2025. 🔍O Provão Paulista é um vestibular seriado voltado a alunos matriculados na rede pública de ensino. Os estudantes fazem o exame em todos os anos ao longo do ensino médio. Isso quer dizer que um aluno que está no 1º ano em 2026 precisará fazer a prova em 2027 e 2028. Só então sua nota final, baseada no desempenho das três edições, será calculada para a disputa por uma vaga na graduação. O relatório está na Nota Técnica “Fraude sistêmica no Provão Paulista e consequências para os processos seletivos de instituições públicas de Ensino Superior”, produzida pela Rede Escola Pública e Universidade (REPU) divulgado nesta sexta-feira (4). Em nota, a Secretaria da Educação enfatizou que os dados apresentados no estudo não permitem sustentar a conclusão de ocorrência de fraude sistêmica no Provão Paulista nem de comprometimento do processo seletivo. "Associar resultados estatisticamente atípicos à ocorrência de fraude, sem evidências individualizadas que estabeleçam essa relação, é uma correlação temerária e que extrapola o que os próprios dados permitem afirmar", afirmou (veja nota completa abaixo). Os pesquisadores explicam que analisaram microdados das edições de 2023, 2024 e 2025 do Provão Paulista, obtidos da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) por meio da Lei de Acesso à Informação. Os resultados foram cruzados pelos pesquisadores ainda com dados de bonificações pagas a profissionais da rede estadual e com listas de estudantes convocados para instituições públicas de Ensino Superior a partir do desempenho no exame. O principal achado aparece na comparação do desempenho dos mesmos estudantes ao longo das diferentes edições do exame. Os pesquisadores classificaram como atípicas variações de desempenho consideradas extremamente improváveis de um ano para outro. O critério, no entanto, é estatístico e não permite afirmar que um determinado estudante tenha fraudado a prova. Fernando Cássio, professor da Faculdade de Educação da USP e um dos responsáveis pelo estudo explica o porquê. "Em tese, e por várias razões, um aluno poderia apresentar uma melhora excepcional de um ano para o outro em um exame. O problema ocorre quando, coincidentemente, milhares de resultados excepcionais aparecem concentrados nas mesmas escolas e nas mesmas regiões. Nesse caso, só um milagre poderia explicar o fenômeno”. Entre os estudantes do 3º ano do Ensino Médio da rede estadual que fizeram o Provão Paulista em 2025, foram identificados 4.305 desempenhos extraordinariamente elevados em comparação com 2023. Segundo o estudo, o número é 12,7 vezes maior do que o esperado estatisticamente. A proporção de resultados atípicos também aumentou de um ano para outro: passou de 0,49% em 2024 para 1,91% em 2025 entre os estudantes do 3º ano da rede estadual. Nas Escolas Técnicas Estaduais (ETECs), por outro lado, apenas 0,17% dos estudantes apresentaram resultados classificados como atípicos em 2025, proporção considerada compatível com a normalidade estatística. Casos concentrados em poucas escolas A concentração dos resultados é um dos elementos que, segundo os pesquisadores, sustenta a hipótese de fraude sistêmica. Metade dos 4.305 desempenhos atípicos identificados em 2025 estava concentrada em apenas 50 escolas estaduais, o equivalente a 1,4% das unidades participantes do Provão Paulista. Em 44 escolas, mais de 40% dos estudantes apresentaram desempenhos considerados atípicos. Em algumas unidades, o percentual passou de 90%. Os resultados também estavam concentrados regionalmente. Metade dos desempenhos atípicos registrados entre os alunos do 3º ano em 2025 estava em apenas 8 das 91 Unidades Regionais de Ensino (UREs) do estado. Na URE que apresentou a maior proporção, 28,6% das notas dos estudantes do 3º ano foram classificadas como fora do padrão esperado. O estudo também comparou os resultados com escolas municipais que oferecem Ensino Médio e com as ETECs. Segundo os pesquisadores, os padrões observados nas escolas estaduais não se repetiram nessas redes. Para os autores da nota, a concentração dos resultados em determinadas escolas e regiões, o crescimento das ocorrências entre 2024 e 2025 e a redução anormal da dispersão das notas afastam explicações baseadas apenas em flutuações estatísticas ou em desempenhos individuais excepcionais. Leonardo Crochik, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e um dos elaboradores da nota, afirma que o fenômeno não está generalizado por toda a rede estadual, mas aparece em diferentes regiões do estado. Segundo ele, isso permite aos pesquisadores classificar o problema como sistêmico, e não como um conjunto de irregularidades pontuais. Crochik ressalta, porém, que a análise estatística não permite determinar se o resultado de um estudante específico foi obtido de forma legítima ou irregular. Reflexo nas vagas de universidades públicas Os pesquisadores também analisaram se os resultados atípicos tiveram relação com as convocações para instituições públicas de Ensino Superior. Segundo a nota, houve uma forte associação entre a proporção de desempenhos atípicos nas escolas e a quantidade de estudantes dessas unidades convocados para matrícula no primeiro semestre de 2026. Dos 14.271 estudantes da rede estadual convocados por meio do Provão Paulista, 1.608 (11,3%) estudavam em 128 escolas nas quais mais de 20% dos resultados individuais foram classificados como atípicos. Outros 1.266 convocados estudavam em escolas com mais de 40% de resultados atípicos, enquanto 1.017 eram de unidades nas quais mais da metade dos estudantes apresentou desempenho considerado anômalo. Os convocados estavam distribuídos entre USP, Unicamp, Unesp e Fatecs. Em nove escolas consideradas especialmente discrepantes pelo estudo — com mais de 75% de resultados atípicos e mais de 75% de convocados —, 203 dos 225 estudantes (90%) apresentaram desempenho atípico e 192 (85%) foram convocados para instituições públicas de Ensino Superior. Os pesquisadores fazem uma ressalva: os dados disponíveis não permitem determinar quantas vagas foram efetivamente ocupadas em decorrência de resultados produzidos sob condições irregulares, nem identificar candidatos que tenham fraudado a prova. A conclusão apresentada é que as anomalias, porém, impactaram as listas de convocação e comprometeram a igualdade de condições entre os participantes do processo seletivo. Pesquisadores apontam conflito de interesses A Nota Técnica também relaciona o problema às regras do próprio Provão Paulista. Segundo os pesquisadores, o exame acumula funções diferentes: é utilizado como processo seletivo para universidades públicas, como instrumento de avaliação das escolas estaduais e como referência para distribuição de bonificações e aplicação de medidas de responsabilização a gestores e professores. As provas, ao mesmo tempo, são aplicadas nas próprias escolas, sob fiscalização de profissionais que podem ser afetados pelos resultados. O estudo aponta que o número de escolas beneficiadas por bonificações aumentou significativamente. Enquanto 559 escolas estaduais com Ensino Médio receberam bonificação "Ouro" ou "Diamante" pelos resultados de 2024, 2.839 receberam bonificação "Ouro" pelos resultados de 2025. Para os pesquisadores, não é possível afirmar que a política de bonificação seja a única causa das irregularidades. A avaliação, porém, é de que o sistema de recompensas e punições criou incentivos para a inflação dos resultados. Outro fator apontado é a chamada "plataformização" da rede estadual, que ampliou o uso de celulares e ferramentas digitais nas atividades escolares, inclusive em avaliações. Na avaliação da REPU, a combinação entre pressão por resultados, incentivos financeiros, possibilidade de punições e facilidade de acesso a celulares criou condições favoráveis à deterioração dos procedimentos de aplicação do exame. Histórico de denúncias O relatório também recupera denúncias registradas desde a primeira edição do Provão Paulista, em 2023, incluindo relatos de vazamento, circulação de imagens e respostas das provas, uso de celulares e facilitação de cola. Em novembro de 2025, a Seduc-SP confirmou a veracidade de imagens de provas publicadas nas redes sociais em seis casos. Na ocasião, segundo o relatório, a secretaria classificou os episódios como ocorrências pontuais de indisciplina e afirmou que eles não haviam comprometido a integridade do exame. Os pesquisadores dizem que os novos resultados estatísticos colocam essa interpretação em xeque. Falta de transparência A Nota Técnica também critica a divulgação dos dados pela Seduc-SP. Segundo os pesquisadores, as bases de dados do Provão Paulista e do Saresp 2025 foram divulgadas em versões sucessivas ao longo de 2026, com inclusão, retirada ou correção de informações meses depois da divulgação dos resultados oficiai Até a conclusão do estudo, parte dos dados solicitados ainda não havia sido disponibilizada. Entre eles estavam os desempenhos dos estudantes do Instituto Federal de São Paulo no Provão Paulista. O relatório afirma ainda que os padrões estatísticos anômalos já eram perceptíveis em 2024, mas não foram detectados pela Seduc-SP nem pela Fundação Vunesp, responsável pela operacionalização do Provão Paulista. O que os pesquisadores recomendam Diante dos resultados, a REPU recomenda mudanças nos procedimentos de aplicação antes da edição de 2026 do Provão Paulista. Entre as medidas estão o controle efetivo de dispositivos eletrônicos e da circulação das provas, mudanças nos critérios para definição dos locais de aplicação, aprimoramento da seleção e supervisão dos aplicadores e criação de mecanismos permanentes de auditoria para identificar resultados discrepantes. Os pesquisadores também defendem a participação das instituições de Ensino Superior que utilizam o Provão Paulista na revisão dos mecanismos de segurança do exame. Outra recomendação é suspender o uso do Provão Paulista para bonificar, punir ou responsabilizar escolas e profissionais da educação. A nota propõe ainda separar a avaliação do sistema de ensino do processo seletivo para universidades e divulgar integralmente os microdados e a documentação metodológica das avaliações. Os autores ressaltam que a pesquisa não deve ser utilizada para apontar retrospectivamente quais estudantes teriam fraudado o exame. Para eles, o problema demonstrado pelos dados é institucional: as condições de aplicação e as políticas de responsabilização teriam permitido que resultados anômalos se concentrassem em escolas e regiões específicas do estado. O que diz a Secretaria da Educação do Estado de SP "Os dados apresentados no estudo não permitem sustentar a conclusão de ocorrência de fraude sistêmica no Provão Paulista nem de comprometimento do processo seletivo. Associar resultados estatisticamente atípicos à ocorrência de fraude, sem evidências individualizadas que estabeleçam essa relação, é uma correlação temerária e que extrapola o que os próprios dados permitem afirmar. Inicialmente, é preciso destacar que 4.305 resultados classificados pela Repu como atípicos não correspondem a 4.305 casos de fraude. Da mesma forma, não há base para associar esse número a 27,4% das vagas do Provão Paulista. Resultados atípicos e vagas oferecidas representam universos distintos, e estabelecer uma relação direta entre eles não demonstra que qualquer percentual das vagas tenha sido afetado por irregularidades. A mesma cautela deve se aplicar aos 11,3% dos 14.271 estudantes convocados para matrícula em 2026 provenientes de escolas com proporção de resultados atípicos superior a 20%. A origem escolar desses estudantes não constitui evidência de fraude individual nem permite concluir que tenham obtido suas convocações de maneira irregular. A Seduc-SP realizou análise complementar das escolas apontadas no estudo e cruzou os resultados com o Saeb, avaliação organizada pelo Inep e aplicada por equipe externa. Entre as 34 escolas com dados comparáveis, 22 apresentaram desempenho elevado e/ou evolução relevante em Matemática. Na EE Gavião Peixoto Conselheiro, por exemplo, 32 dos 35 estudantes tiveram resultados classificados como atípicos no Provão, enquanto os mesmos estudantes alcançaram 363,7 pontos em Matemática no Saeb de 2025, com evolução de 106,4 pontos desde 2023. Esse cruzamento demonstra porque resultados estatisticamente atípicos, isoladamente, não podem ser tratados como evidência de fraude. Desempenhos elevados ou evoluções expressivas também aparecem em uma avaliação externa e independente do Provão. A metodologia estatística utilizada, portanto, não é capaz de distinguir, por si só, evolução de aprendizagem e preparação de eventual irregularidade. Essa limitação é reconhecida pelo próprio estudo, que não identifica quais estudantes teriam eventualmente fraudado a prova, não determina como as supostas fraudes teriam ocorrido em cada escola e tampouco estabelece quantas vagas teriam sido efetivamente ocupadas em decorrência de resultados obtidos sob condições irregulares. Diante dessas limitações, não há sustentação nos dados apresentados para transformar indícios estatísticos em uma conclusão generalizada de fraude ou de comprometimento das vagas ofertadas. A Seduc-SP não minimiza ocorrências anteriores de descumprimento das regras de aplicação. Em 2025, foram identificados seis casos pontuais de estudantes que ingressaram com celulares nas salas e fotografaram questões durante a realização do exame. Não houve acesso prévio ao conteúdo da prova nesses casos. As provas foram anuladas e as equipes escolares orientadas quanto ao cumprimento do regulamento do Provão". Começa hoje o Provão Paulista

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/09/04/relatorio-identifica-milhares-de-resultados-atipicos-no-provao-paulista-que-seleciona-para-universidades-publicas.ghtml


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