Reag e Banco Master: como a gestora entrou no radar das investigações da PF?
15/01/2026
(Foto: Reprodução) Banco Central decreta liquidação da Reag
O Banco Central decretou nesta quinta-feira (15) a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários — novo nome da Reag Trust DTVM, área que faz a gestão dos fundos da Reag Investimentos —, aprofundando a conexão entre a empresa e as investigações que miram um suposto esquema de fraudes no Banco Master.
A medida ocorre no contexto da segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, que investiga irregularidades no sistema financeiro e envolve nomes ligados à antiga estrutura da gestora.
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A apuração investiga irregularidades financeiras atribuídas ao Banco Master e envolve personagens do mercado financeiro. Entre os alvos da operação está João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da Reag, que teve endereços submetidos a mandados de busca e apreensão na quarta-feira (14).
🔎 Por autorização do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, foram expedidos 42 mandados de busca e apreensão, além de ordens de sequestro e bloqueio de bens e valores que, segundo a Polícia Federal, superam R$ 5,7 bilhões. Durante a operação, agentes apreenderam ainda R$ 97,3 mil em dinheiro em espécie.
O nome da Reag, porém, não aparece apenas neste inquérito. A seguir, o g1 reúne as principais informações sobre a empresa e explica de que forma ela surge vinculada ao escândalo envolvendo o Banco Master.
O que é a Reag
Quem é João Carlos Mansur
Operação Carbono Oculto
Operação Compliance Zero
Liquidação pelo BC e elo com o Master
Expansão no mercado financeiro
O que diz a Reag
O que é a Reag
Fundada em 2013 por João Carlos Mansur, a Reag Investimentos se tornou uma das maiores gestoras independentes do país, sem vínculo com bancos.
Ela chegou a administrar R$ 299 bilhões de pessoas físicas, empresas, fundos de pensão e investidores institucionais e foi a primeira gestora de patrimônio a ter ações negociadas na bolsa brasileira.
A Reag era controlada pela Reag Capital Holding S/A, que também administrava a CiabraSF, outra holding independente citada na operação Carbono Oculto, em agosto (veja mais abaixo).
A CiabraSF teve sua compra finalizada pelo Grupo Planner na terça-feira passada (6). O negócio incluiu uma condição específica: a realização de uma oferta pública de aquisição de ações, mecanismo pelo qual o novo controlador faz uma proposta para comprar as ações em circulação e, assim, assumir oficialmente o controle da empresa.
Em outubro do ano passado, a Reag Capital Holding anunciou o cancelamento de seu registro como companhia aberta. Com a decisão, ela deixou a categoria B, destinada a empresas que emitem títulos ao público (como debêntures ou cotas de fundos de investimentos), mas não têm ações na bolsa.
O fechamento de capital aconteceu em um momento de reorganização das empresas controladas pela holding, após a Reag Investimentos, então sob o controle da Reag Capital, ter sido incluída entre as companhias investigadas pela megaoperação da Polícia Federal contra o PCC. (entenda mais abaixo)
Poucos dias depois da operação, a companhia anunciou a venda da Reag Investimentos para a Arandu, formada pelos principais executivos da própria Reag.
Fora do mercado financeiro, a Reag ganhou visibilidade ao patrocinar o Cine Belas Artes, um dos cinemas mais tradicionais de São Paulo. Com a aquisição dos direitos de nomeação, o espaço passou a se chamar REAG Belas Artes a partir de janeiro de 2024.
Em dezembro, no entanto, o Cine Belas Artes anunciou o fim da parceria e iniciou uma campanha para encontrar um novo patrocinador.
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Quem é João Carlos Mansur
João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da Reag Investimentos, está entre os investigados na segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura um suposto esquema de fraudes financeiras no Banco Master.
Mas essa não foi a primeira vez que o empresário se envolveu em polêmicas.
Mansur renunciou ao cargo de presidente do conselho de administração da Reag Investimentos em setembro do ano passado, após a empresa ter sido algo de uma megaoperação contra o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Bacharel em ciências contábeis, Mansur fundou a Reag Investimentos em 2013, possui 35 anos de experiência no mercado financeiro e atua como conselheiro independente autorizado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para gerir carteiras de investimentos.
O empresário tem experiência em auditoria, controladoria, gestão financeira, planejamento estratégico, análise de investimentos e desenvolvimento de negócios.
👉 Em seu perfil no LinkedIn, afirma ter estruturado mais de 200 fundos de investimento — incluindo Fundos de Investimento Imobiliário (FII), Fundos de Investimento em Participações (FIP) e Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) —, além de conduzir outras operações no mercado de capitais.
Mansur atuou como executivo em empresas como PricewaterhouseCoopers (PwC), Monsanto, Tishman Speyer e WTorre Arenas, participando ainda da criação do estádio Allianz Parque.
Além de sua ligação com times de futebol por meio da Reag, Mansur trabalhou na Trump Realty Brazil, empresa que levava o nome do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A joint venture foi criada em 2003, mas o contrato com o Republicano durou apenas até 2006, uma vez que o projeto fracassou antes de concluir qualquer empreendimento imobiliário.
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Operação Carbono Oculto
Em agosto do ano passado, a PF deflagrou a Operação Carbono Oculto para desarticular um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, atribuído a integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo as investigações, o grupo deixou de recolher mais de R$ 7,6 bilhões em impostos e operava irregularidades em diferentes etapas da cadeia de produção, distribuição e comercialização de combustíveis.
Para ocultar a origem dos recursos, o esquema utilizava uma estrutura financeira sofisticada, baseada no uso de fintechs e fundos de investimento.
👉 Ao menos 40 fundos, entre multimercado e imobiliários, com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões, teriam sido controlados direta ou indiretamente pela facção. Muitos deles eram fundos fechados, com um único cotista, o que dificultava a identificação dos reais beneficiários.
👉 A Reag Investimentos apareceu nas investigações como uma das empresas mencionadas no apuração sobre o uso de fundos de investimento para a ocultação de recursos.
Segundo a Polícia Federal e a Receita Federal, administradoras de fundos teriam ciência das irregularidades e deixado de cumprir obrigações legais, contribuindo para esconder a movimentação financeira da organização criminosa.
As apurações indicavam que fintechs eram preferidas em detrimento de bancos tradicionais para dificultar o rastreamento das transações.
Em um dos casos, a Receita Federal identificou uma fintech que funcionava como um “banco paralelo” da organização criminosa, movimentando mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024.
Parte dessas operações passava por chamadas “contas-bolsão”, que misturam recursos de diversos clientes e reduzem a transparência das movimentações.
Os valores obtidos com o esquema foram usados para adquirir ativos e blindar patrimônio, incluindo usinas sucroalcooleiras, distribuidoras, transportadoras, postos de combustíveis, imóveis, fazendas e um terminal portuário.
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Operação Compliance Zero
Já na quarta-feira (14), a Polícia Federal deflagrou a segunda fase das investigações, com a Operação Compliance Zero, que apura um suposto esquema de fraudes financeiras no Banco Master. A ação incluiu o cumprimento de mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao controlador da instituição, Daniel Vorcaro, e a seus familiares.
Além deles, o empresário Nelson Tanure e o investidor João Carlos Mansur, ex-presidente da gestora de fundos Reag Investimentos, também estavam entre os alvos.
A investigação detectou que havia captação de dinheiro, aplicação em fundos e desvio para o patrimônio pessoal de Vorcaro e parentes. O celular do dono do Master foi apreendido.
Nessa etapa da operação Compliance Zero, havia 42 mandados de busca e apreensão, determinados por Toffoli, além de medidas de sequestro e bloqueio de bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões. Foram apreendidos diversos carros e itens de luxo.
Os mandados tinham alvos em São Paulo, incluindo endereços na Avenida Faria Lima, um dos principais centros financeiros da capital paulista, e os estados da Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
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Liquidação pelo BC e elo com o Master
Hoje, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da Reag Trust DTVM — área que faz a gestão dos fundos da Reag Investimentos — agora denominada CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.
A decisão implica a interrupção imediata das atividades da instituição, que deixa de operar como gestora e administradora de recursos no mercado financeiro. Apesar disso, a medida não atinge diretamente os fundos de investimento vinculados à empresa, que seguem existindo, mas precisarão ser transferidos para outras instituições habilitadas.
A autarquia afirma que a liquidação foi adotada após a constatação de descumprimento de normas legais e prudenciais exigidas pelo regulador.
Em nota, o órgão informou que foram identificadas “graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional”.
De acordo com o BC, essas falhas comprometeram a capacidade da instituição de operar de forma regular e segura, o que levou à decisão de encerrar suas atividades como forma de preservar investidores e o funcionamento do sistema financeiro. A autoridade monetária não detalhou quais condutas específicas motivaram a liquidação.
A Reag atuava na administração e gestão de mais de 80 fundos de investimento, além de prestar serviços de gestão patrimonial a pessoas físicas. A empresa integra um grupo que reúne outras companhias, como a Reag Capital Holding e a CiabraSF, que não foram alcançadas pela medida.
O BC informou que seguirá apurando responsabilidades e que as investigações podem resultar em sanções administrativas e no envio de informações a outras autoridades. Conforme prevê a legislação, os bens dos controladores e ex-administradores da instituição ficam indisponíveis durante o processo.
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Expansão no mercado financeiro
Nos últimos anos, a Reag fez diversas aquisições que ampliaram sua presença no mercado financeiro. Entre as empresas incorporadas estão Hieron, Berkana, Rapier, Quadrante e Quasar.
Em 2024, a Reag adquiriu a Empírica Investimentos, especializada em crédito estruturado e fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), posicionando-se entre as três maiores do setor, com cerca de R$ 25 bilhões sob gestão.
Em 2025, a empresa viveu um novo capítulo: em janeiro, realizou a incorporação reversa da plataforma de serviços GetNinjas, usando sua estrutura já listada na B3 para se transformar em uma holding aberta.
Com a reorganização societária, a GetNinjas deixou de operar como empresa independente, e suas ações passaram a ser negociadas na bolsa sob o código REAG3. Mas, em dezembro do ano passado, após a Reag Investimentos ser vendida para a Arandu, o papel teve novo código, passando a ser negociado como ARND3.
Em fevereiro de 2025, a Reag Capital Holding deu outro passo ao anunciar a listagem na bolsa da Companhia Brasileira de Serviços Financeiros (CiabraSF), empresa do mesmo grupo, sob o código ADMF3. A estreia ocorreu com uma base expressiva, incluindo a administração de mais de 700 fundos e um patrimônio líquido em torno de R$ 240 bilhões.
Outra empresa do grupo era a Reeve (RVEE3), que foi listada na bolsa em abril de 2025 — mas não foi citada nas operações da PF. A companhia ganhou destaque em 2024 ao se associar à XP Investimentos e à Tauá Partners na Sociedade Anônima do Futebol (SAF) da Portuguesa, assumindo na ocasião a revitalização do estádio do Canindé.
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O que diz a Reag
Procurada pelo g1 nesta quinta-feira, a Reag não comentou a liquidação decretada pelo Banco Central até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para eventuais manifestações dos envolvidos.
No site da holding, é mantida uma nota de outubro, em que afirma que "atua de forma ética, transparente e em conformidade com a legislação e a regulação aplicáveis ao sistema financeiro e de capitais".
Veja na íntegra o comunicado abaixo:
"A REAG Capital Holding S.A. vem a público repudiar alegações publicadas na imprensa que buscam indevidamente associar a companhia e a atuação de seus executivos a práticas irregulares e organizações criminosas, sem apresentar quaisquer provas de envolvimento em atos ilícitos.
A companhia reafirma que:
* atua de forma ética, transparente e em conformidade com a legislação e a regulação aplicáveis ao sistema financeiro e de capitais, sob a supervisão permanente de órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários e o Banco Central;
* as estruturas societárias, fundos de investimento e participações sob sua gestão ou administração obedecem integralmente às normas de compliance, governança corporativa, prevenção à lavagem de dinheiro (Resolução nº 50/2021 do Coaf) e conheça seu cliente (Know Your Customer – KYC);
* é incorreto e descabido afirmar que tenha figurado como sócia em operações ou estruturas dos fundos sob sua administração, pois, conforme a Lei nº 8.668/1993, os bens e direitos integrantes dos fundos não se confundem com o patrimônio da administradora, não integram seu ativo e não respondem, direta ou indiretamente, por obrigações da instituição;
* está colaborando de forma ampla e proativa com as autoridades competentes, fornecendo todas as informações e documentos necessários ao esclarecimento dos fatos, convicta de que sua isenção e integridade serão plenamente reconhecidas.
São Paulo, 15 de outubro de 2025
REAG Capital Holding S.A."
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Infográfico explica caminho do dinheiro no esquema do PCC.
Arte/g1
Reag Investimentos
Divulgação