Quem é o paulista que vai às urnas em outubro? Veja como a população mudou desde a redemocratização
03/08/2026
(Foto: Reprodução) Quem é o paulista de hoje?
Maior colégio eleitoral do país, São Paulo tem mais de 34 milhões de eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os paulistas representam 22% do eleitorado do país, que totaliza mais de 155 milhões de pessoas. O voto feminino é maioria no estado, com 18,22 milhões de mulheres (53%).
Desde as Eleições Diretas, São Paulo ganhou mais de 14 milhões de habitantes e chegou a 46 milhões de moradores, segundo o IBGE. Mas a mudança mais importante não foi o tamanho da população e, sim, quem são os paulistas de hoje.
A partir desta segunda-feira (3), uma série especial do SP1 em parceria com o g1 mostra como o estado de São Paulo mudou desde o início da redemocratização, analisando as transformações demográficas e seus reflexos na saúde, na educação e na segurança pública.
São Paulo está envelhecendo. No início da década de 1990, 4 em cada 10 paulistas eram crianças ou adolescentes. Hoje, este grupo representa 24% da população. Já os idosos passaram de 7% para 17% no mesmo período.
Em números absolutos, a população com 60 anos ou mais triplicou: passou de 2,4 milhões para 7,6 milhões. Pela primeira vez, crianças e idosos têm praticamente o mesmo peso na população paulista.
Mosaico sobre o perfil do paulista
Reprodução/TV Globo
Jefferson Mariano, analista socioeconômico do IBGE, explica que o estado segue a tendência nacional de queda da fecundidade e o aumento da longevidade. Ao longo das últimas décadas, a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), a ampliação do acesso à medicação e a melhora de indicadores sociais também contribuíram para que a população viva mais.
"O aumento da longevidade em São Paulo é mais expressivo no estado do que em outras localidades do país por conta dos indicadores sociais mais favoráveis, como a cobertura de rede de esgoto. Esses indicadores que impactam na saúde pública são muito favoráveis em São Paulo e contribuíram para a longevidade", afirma Mariano.
Além de viver mais, o paulista também passou a ter menos filhos. Casamentos tardios, mais participação das mulheres no mercado de trabalho e aumento do custo de criação dos filhos ajudam a explicar essa mudança.
Atualmente, mais de 65% das mulheres paulistas com filhos têm, no máximo, dois filhos. Em 2000 — quando o Censo passou a coletar este dado — esse percentual era de 54%. Seguindo essa tendência, a proporção de mulheres com filho único subiu de 24% para 30%.
A redução do tamanho das famílias também mudou a configuração dos domicílios paulistas. Hoje, quase metade dos lares tem até dois moradores. Já os domicílios com apenas um morador passaram de 7% em 1991 para 19,2% em 2022, enquanto aqueles com cinco moradores ou mais perderam participação ao longo do período.
Segundo o analista socioeconômico do IBGE, outro fator importante foi a redução das chamadas "famílias conviventes" — quando dois ou mais núcleos familiares vivem no mesmo imóvel sem compartilhar rendas e despesas.
"Além de ter domicílios com quatro ou cinco moradores, era comum haver dois ou três núcleos familiares vivendo na mesma casa. Isso mudou. O fato de mais pessoas morarem sozinhas também está relacionado ao aumento da longevidade associado à autonomia. As pessoas só conseguem viver sozinhas quando têm condições para isso", diz Mariano.
Quem é o paulista de hoje?
Arte/g1
Estado mais diverso
No início da década de 1990, somente 25% dos moradores de São Paulo se declaravam pretos ou pardos. Trinta anos depois, esse percentual chegou a 40% — quatro em cada dez paulistas. Embora o estado ainda seja majoritariamente branco (57%), a população se tornou mais diversa.
Segundo Mariano, dois fatores explicam esse movimento: o letramento racial e a taxa de fecundidade maior entre mulheres pretas e pardas em comparação com as brancas.
Temos um crescimento de pessoas que no passado se declaravam brancas e agora passam a se enxergar e se declarar pardas. Da mesma forma, pessoas que se declaravam pardas hoje se identificam como pretas. Houve um avanço nessa discussão na sociedade, nas universidades, nas escolas e também mudanças na legislação, especialmente nos últimos 20 anos, que contribuíram para esse aumento.
O analista do IBGE lembra ainda que São Paulo, assim como os estados da região Sul, historicamente apresenta uma proporção maior de pessoas brancas em comparação com outras regiões do país.
A diversidade também aparece na religião. Em 1991, oito em cada dez paulistas se declaravam católicos. Em 2022, eram cinco em cada dez.
No mesmo período, outros grupos cresceram, segundo os Censos do IBGE:
Evangélicos: 6,5% para 27,3%;
Sem religião: 4,9% para 10,4%;
Religiões afro-brasileiras: 0,47% para 1,47%.
Para Mariano, parte dessa mudança está relacionada tanto ao surgimento de novas religiões quanto à forma como os brasileiros passaram a declarar sua fé.
"Normalmente as pessoas se declaravam católicas sem fazer muita reflexão sobre isso. Muitas vezes eram batizadas e automaticamente se consideravam católicas. Hoje existe uma avaliação mais crítica sobre a própria religião. Por isso o dado atual tem uma qualidade superior àquele que tínhamos há 20 ou 30 anos", explica.
Imigração
Movimentação de passageiros no saguão do Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo.
BRUNO ESCOLASTICO/E.FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO
São Paulo continua sendo um estado marcado pela migração, mas o perfil da população mudou nas últimas décadas.
Hoje, praticamente quatro em cada cinco moradores nasceram no próprio estado. Em 1991, os paulistas de nascimento representavam 76,1% da população. Em 2022, passaram a 79,7%, segundo o Censo do IBGE.
Mariano afirma que o aumento da proporção de pessoas nascidas em São Paulo reflete uma redução da intensidade dos fluxos migratórios.
"Hoje, a proporção de pessoas naturais do estado de São Paulo é maior do que era há 30 anos. Houve um refreamento no processo de migração. Diminuiu um pouco o volume de pessoas ingressando no estado. São Paulo ainda é o maior receptor de migração interna do país, mas hoje já tem uma proporção maior de pessoas naturais do próprio estado."
Apesar dessa mudança, São Paulo continua reunindo milhões de moradores nascidos em outras partes do país. Em 2022, a Bahia era o principal estado de origem dessa população, com 1,84 milhão de moradores vivendo em território paulista, seguida por Minas Gerais (1,6 milhão), Paraná (1 milhão), Pernambuco (1 milhão) e Ceará (529 mil).
O desafio das políticas públicas
As transformações no perfil da população mudam também as demandas do estado. Para Mariano, acompanhar essas mudanças é essencial para orientar políticas públicas e evitar desperdício de recursos.
"É importante olhar para os dados e para as evidências para desenhar políticas públicas. Quando entendemos como a população se distribui e como ela muda ao longo do tempo, conseguimos direcionar melhor os recursos para as regiões e para as necessidades de cada grupo."
O analista afirma que o envelhecimento da população representa um dos principais desafios para São Paulo nas próximas décadas.
"O Brasil enfrenta um processo de envelhecimento muito rápido, semelhante ao de países desenvolvidos, mas ainda convive com desafios sociais importantes. O grande desafio é equilibrar os recursos disponíveis. Não é possível deixar de atender crianças, jovens e a população de baixa renda para concentrar tudo na população idosa."
Segundo Mariano, essa mudança exigirá adaptações em diversas áreas, como saúde, mobilidade e infraestrutura urbana. "O Censo mostra, por exemplo, a necessidade de ampliar a acessibilidade. As cidades e o estado precisam estar preparados para uma população cada vez mais idosa."