Promessa feita durante surto de febre amarela deu origem à Festa do Divino e mantém peregrinação de canoas pelo Rio Tietê

  • 25/07/2026
(Foto: Reprodução)
Festa do Divino em Laranjal Paulista nasceu de promessa após surto de febre amarela A Festa do Divino Espírito Santo, tradição mantida há mais de 200 anos em Laranjal Paulista (SP), reúne fé, história e cultura em uma peregrinação pelo Rio Tietê. A festividade termina neste sábado (25), com várias atividades programadas para começaram a partir das 16h, no Distrito de Laras. Ao g1, Fábio de Camargo, de 49 anos, participante da irmandade, conta que a celebração teria começado por volta de 1800, após um surto de febre amarela em Laras, antigo vilarejo às margens do rio Tietê, e hoje distrito do município. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp "Naquele tempo não tinha acesso a nada, não existia estrada, o caminho era só por água. E daí teve esse surto de febre amarela, e não tinha cura, né? As pessoas foram pegando a doença, foi se alastrando mais rápido. Não dava nem tempo de fazer caixão. Muitas pessoas eram enterradas em lençóis", conta. Festa do Divino revive tradição iniciada no século XVIII às margens do rio Tietê Prefeitura de Laranjal Paulista/Divulgação De acordo com a tradição, uma moradora pediu ao Divino Espírito Santo o fim da doença na região e prometeu levar a imagem do santo pelas casas da população ribeirinha, caso tivesse o pedido atendido. "Ela alcançou a graça e aí se formou um grupo de três homens pra levar a imagem no mês de julho. Foram obter a primeira pernigração, ou como diz na minha região, a primeira viagem do rio", relata Fábio. A promessa deu origem às primeiras viagens feitas em canoas, levando bênçãos aos moradores que viviam às margens do Tietê. Com o passar dos anos, a devoção cresceu e deu origem à irmandade. "Muitas pessoas ingressaram juntos, os devotos do Divino. Até que chegou o momento que eles precisaram montar a irmandade. Como eram muitas pessoas, eles derrubaram duas peróbas [árvore] grandes pra fazer uma embarcação maior, para caber 30, 40 homens", descreve. A comitiva sai do Distrito de Laras com duas canoas, percorre o trajeto pelo rio e por terra, e retorna ao ponto de encontro no Rio Tietê, para festa de encerramento Prefeitura de Laranjal Paulista/Divulgação A procissão teve uma pausa Segundo Fábio, a tradição da Festa do Divino Espírito Santo passou por um período de interrupção na década de 1830. Com a redução dos casos da doença que motivou a promessa inicial, os devotos decidiram suspender a peregrinação. "Como a doença tinha sumido, eles resolveram parar. Achavam que a promessa tinha sido cumprida. E nessa época de 1832, 1833, a doença voltou mais forte. Aí eles se reuniram de novo. Nessa época, já havia a irmandade, com diretoria, já tinha terço cantado, folião." Pouso e alimentação A chamada “Viagem do Rio” ocorre cerca de 30 dias antes da festa e percorre comunidades de Laranjal Paulista, Piracicaba, Saltinho, Conchas e Pereiras. Durante o trajeto, os devotos levam a imagem do Divino de casa em casa. "O trecho que a gente percorre é basicamente o mesmo todo ano, são as mesmas casas que a gente visita. Mais ou menos umas oitocentas residências são visitadas dentro de 20 dias. O trajeto é pelo rio e por terra. Você embarca pelo rio, você sobe ou desce até um determinado ponto. A mesma coisa que os ancestrais faziam, a gente faz na nossa região", relata. LEIA TAMBÉM: Clarão no céu e fim da guerra: conheça a história da suposta aparição de São Miguel Arcanjo durante a Revolução de 1932 'Menina Milagrosa': conheça a história da criança que morreu em incêndio há 86 anos, virou símbolo de fé e atrai devotos a capela no interior de SP Considerado 'bandeirante do folclore brasileiro', Cornélio Pires lutou contra estereótipo caipira na literatura e deixou mais de 20 livros Para cumprir a peregrinação, a comitiva conta com a solidariedade dos moradores das comunidades visitadas, que oferecem locais para descanso, pouso e alimentação aos devotos. As refeições também seguem uma série de rituais, com momentos de benzimento, cantos, danças e orações antes da partilha. "As pessoas querem dar almoço, pão e café. Muitas pessoas têm promessa de dar almoço e pouso. Aí tem todo um cerimonial, levantamento de mastro, quando tem promessa pra pagar. Os foliões cantam, um monte de oração cantada, benze a comida, para pedir a multiplicação, reza-se o terço, quando é de noite o terço é cantado, e após acabar o terço, todo mundo convidado pra jantar", descreve Fábio. A forma de servir e o cardápio mantêm costumes antigos da tradição, conforme o devoto: “Se come em pé, com colher e prato fundo. Arroz, feijão, sopa de mandioca, carne moída e salada. São comidas que são feitas no sistema antigo, no fogo de chão, no tacho e na lenha." Além da fé e dos rituais, a peregrinação também exige conhecimento e adaptação às condições do Rio Tietê. Neste sentido, a experiência acumulada ao longo das gerações ajuda a comitiva. "A gente nunca sabe como que o rio vai estar naquele período, esse ano, por exemplo, choveu muito na semana da saída nossa, mas, graças a Deus nos dias o rio abaixou e ficou com um pouquinho de água, que pra nós é muito bom, porque a gente tem três lugares de corredeira onde a água é muito forte e não usa remo. Mas a gente já conhece de muito tempo o rio." Com origem em promessa feita há mais de dois séculos, Festa do Divino reúne fé e tradição às margens do rio Tietê Prefeitura de Laranjal Paulista/Divulgação Procissão dos amortalhados Outro momento de grande simbolismo da Festa do Divino Espírito Santo é a procissão dos amortalhados, tradição que representa o cumprimento de promessas feitas pelos devotos. Segundo Fábio, a prática está ligada à origem da celebração e ao período em que a região enfrentou um surto de febre amarela. "Os amortalhados são pessoas que fazem pedido, fazem promessa para o Divino. Quando alcançam a graça, eles deitam enrolados no lençol, igual faziam com as pessoas que morriam de febre amarela no passado, que eram enterrados no lençol. Essas pessoas deitam como se fossem amortalhados para a imagem do Divino passar por cima. E os irmãos caminham por cima delas. Deitam e levantam com uma nova vida através do Espírito Santo de Deus", detalha o devoto. Procissão dos amortalhados é uma tradição que representa o cumprimento de promessas feitas pelos devotos Prefeitura de Laranjal Paulista/Divulgação A comitiva, que saiu do Distrito de Laras em 28 de junho com duas canoas, retorna ao ponto de encontro no Rio Tietê neste sábado (25), quando será realizada a festa de encerramento. "Uma procissão está na canoa do Divino e a outra na canoa de São Sebastião. Na canoa do Divino os irmãos estão de uniforme azul, e na canoa de São Sebastião, de uniforme branco. A bandeira está na do Divino. As as duas canoas se encontram no rio, aí tem queima de fogo, começa a procissão dos amortalhado, levanta o mastro, tem a missa e leva o Divino na Casa da Festa", explica o participante. Duas canoas percorrem o rio Tietê, na região de Laranjal Paulista (SP), carregando a bandeira do Divino Espiríto Santo Prefeitura de Laranjal Paulista/Divulgação Para Fábio, a tradição representa a união entre fé, história e a preservação da cultura ribeirinha. Ele conta que participa da celebração desde criança e que a devoção faz parte da história da própria família. "Durante a viagem, a bandeira recebe muitos pedidos e agradecimento em foto e fita. Quando ela sai, tem as sete fitas, simbolizando os sete dons do Espírito Santo, e aí ela volta carregada de fita e foto. Eu faço parte desde um ano de idade. É a promessa que a minha mãe fez pra mim, ou seja, 49 anos que eu faço parte. Meu avô já fazia parte. É tudo um pedido, um agradecimento e uma oração", finaliza Fábio. Bandeira do Divino volta carregada de fitas e fotos colocadas por devotos Arquivo Pessoal Distrito de Laras O Distrito de Laras, também conhecido como Capela de São Sebastião da Pedra Grande, fica a cerca de 18 quilômetros da sede de Laranjal Paulista (SP), às margens do Rio Tietê. Segundo a Prefeitura, os primeiros moradores oficialmente registrados foram João Antonio de Proença Lara, Antonio de Mello Almada e Antonio Cardoso de Arruda, que chegaram à região em meados do século XIX, vindos de Capivari pelo curso dos rios.As famílias, unidas por laços de parentesco, ajudaram a formar o povoado, onde passaram a cultivar cana-de-açúcar, construir casas de taipa e instalar senzalas. "Praticamente, Laranjal Paulista nasceu ali no Distrito de Laras, que era uma vila de Tietê. Então, é uma grande história, porque, na verdade, a cidade veio dali", explica Fúlvio Antônio Scarme, secretário de Cultura e Turisimo do município. Com o crescimento da comunidade, em 23 de março de 1920, o local foi oficialmente reconhecido como o “Distrito de Paz de Laras”. Anos depois, por meio do Decreto Estadual nº 9.775, de 30 de novembro de 1938, o distrito foi desmembrado de Tietê e passou a integrar oficialmente o município de Laranjal Paulista. Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/itapetininga-regiao/noticia/2026/07/25/promessa-feita-durante-surto-de-febre-amarela-deu-origem-a-festa-do-divino-e-mantem-peregrinacao-de-canoas-pelo-rio-tiete.ghtml


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