Ministério Público vai investigar entrada de PMs armados em escola de SP após denúncia sobre desenho de orixá
31/07/2026
(Foto: Reprodução) PM diz que diretora de escola municipal de SP queria "impor ideologia"
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) instaurou um inquérito civil para investigar a atuação de policiais militares que entraram armados na escola Antônio Bento, na Zona Oeste da capital, após a denúncia de um pai de aluna sobre uma atividade pedagógica envolvendo a orixá Iansã.
A investigação teve como base depoimentos, documentos e a análise das imagens das câmeras corporais dos policiais envolvidos. Para o Ministério Público, os elementos reunidos até o momento não apontam a existência de crime que justificasse a atuação policial na escola, tornando a diligência "injustificada".
O procedimento cita ainda que a Secretaria da Segurança Pública decidiu, em apuração preliminar, não instaurar inquérito policial militar nem sindicância contra os agentes por entender que não havia indícios de transgressão disciplinar.
O promotor afirma que pretende aprofundar a investigação para verificar eventual violação ao direito à educação e ao livre exercício da atividade pedagógica, considerando a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).
O inquérito também incorporou uma representação apresentada pelo Movimento Brasil Laico, que passou a integrar o procedimento já em andamento no Ministério Público.
Relembre o caso
O episódio ocorreu em 11 de novembro de 2025, quando o pai de uma aluna de 4 anos acionou a Polícia Militar alegando que a filha estaria sendo obrigada a participar de uma "aula de religião africana" após fazer um desenho com o nome da orixá Iansã. Posteriormente, a Secretaria da Segurança Pública confirmou que o homem é soldado da Polícia Militar da ativa.
Após o chamado, 12 policiais militares entraram na EMEI Antônio Bento, um deles portando um fuzil, para atender à ocorrência. Especialistas ouvidos pelo g1 avaliaram que o emprego de um grande efetivo armado em uma escola de educação infantil era desproporcional para uma ocorrência sem qualquer indício de violência.
Tenente Ronald Camacho foi o comandante responsável por atender a ocorrência de intolerância religiosa na escola.
Montagem/g1/Reprodução
Uma servidora da escola afirmou que foi pressionada contra a parede e teve uma arma encostada no corpo durante uma abordagem que teria durado cerca de 20 minutos. Segundo relatos, os policiais permaneceram na unidade por mais de uma hora.
Em junho deste ano, o g1 revelou imagens das câmeras corporais dos policiais que mostram a discussão entre o tenente responsável pela ocorrência e a diretora da escola. Nas gravações, a educadora explica que a atividade fazia parte de um projeto pedagógico baseado nas Leis Federais nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas.
Durante a conversa, o policial contesta a explicação da diretora e afirma que ela tentava "ditar sua ideologia". A educadora responde que a atividade era baseada no livro infantil Ciranda de Aruanda, integrante do acervo distribuído às escolas da rede municipal, e que abordava a cultura afro-brasileira em uma perspectiva cultural e literária, e não religiosa.
Em março deste ano, a Polícia Civil indiciou o pai da aluna por intolerância religiosa. Já em junho, a corporação concluiu que os policiais militares seguiram o protocolo da PM ao entrarem na escola e encerrou a investigação. O procedimento, no entanto, foi concluído antes da análise integral das imagens das câmeras corporais obtidas pelo g1.