Mãe de vítima de acidente da Voepass relata surpresa com número de indiciados e desabafa: 'Profissionais fazendo gambiarra'
06/08/2026
(Foto: Reprodução) Mãe de vítima de acidente da Voepass relata surpresa com número de indiciados
Fátima Albuquerque, mãe de uma das vítimas do acidente com o avião da Voepass, que deixou 62 mortos em Vinhedo (SP) em agosto de 2024, relatou surpresa com o número de indiciados no relatório final da Polícia Federal (PF) divulgado nesta quinta-feira (6). Ao todo, 16 pessoas irão responder criminalmente pela queda da aeronave.
A Associação de Familiares das Vítimas teve acesso ao relatório antes da coletiva para divulgação do documento à imprensa. Segundo Fátima, que também é presidente da associação, muita gente foi "aliciada para viver uma cultura criminosa".
Ela ainda chamou de "gambiarra" as manutenções feitas por mecânicos nos aviões da companhia — o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e a PF constataram que havia uma "maquiagem" nos prazos de utilização de peças para permitir a liberação de aeronaves.
"Se vocês lerem os relatórios, se vocês já viram o do Cenipa: são gambiarras, são coisas que faziam deliberadamente quando sabotavam a fiscalização. E contavam com tanta impunidade que mesmo na fiscalização assistida, com a Anac [Agência Nacional de Aviação Civil] lá dentro, eles faziam a mesma coisa", disparou Fátima.
"Eram profissionais preparados, como engenheiro formado na USP [Universidade de São Paulo], sabotando a fiscalização, fazendo gambiarra numa aeronave que poderia matar", completou.
Fátima Albuquerque se mostrou surpresa com número de indiciados
Reprodução/EPTV
A presidente da associação comentou que o acidente era "tragédia anunciada" e denominou a operação da Voepass como um "modus operandi criminoso". Por fim, Fátima fez um apelo para o fortalecimento das agências fiscalizadoras.
"Vocês viram a importância da Anvisa na pandemia. Vocês viram a importância da Enel nos apagões de São Paulo. E, agora, a importância da Anac. A Anac fez tudo certo, mas hora de ter força, não teve", ponderou.
Em nota, a Voepass diz compreender que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e "aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente".
"A Voepass reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários" - leia a nota na íntegra abaixo.
'Sentimento de vitória'
Famílias de vítimas da Voepass comentam indiciamento da PF
Já Adriana Ibba, mãe de Liz, de 3 anos, a vítima mais jovem do acidente, descreveu um "sentimento de vitória" após a divulgação do relatório. No entanto, ela também destacou que o documento é o início de uma "longa caminhada por Justiça".
"Eu recebo um sentimento de vitória. A expectativa era de dois anos por esse momento. E é o início de uma longa caminhada que nós teremos pela frente, porque nós vamos até o fim da justiça por eles", comentou.
Adriana disse que a eventual punição dos indiciados não é capaz de reparar a perda das famílias, mas ressaltou que o caso deve servir de alerta para a segurança da aviação brasileira. "A gente vê de forma muito positiva o trabalho da Polícia Federal, que vai ser um marco para a história e para a segurança da aviação como um todo."
Após a conclusão do inquérito da PF, familiares das vítimas pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais. Segundo o advogado Leonardo Amarante, a medida não substitui as ações individuais de indenização já em andamento. A intenção é buscar a responsabilização de empresas, pessoas físicas e eventuais instituições que tenham contribuído.
As famílias defendem que o processo judicial resulte na responsabilização dos envolvidos e afirmam que também continuarão cobrando medidas para fortalecer a fiscalização da aviação civil.
Adriana Ibba, mãe de Liz de 3 anos, diz que recebe indiciamento da PF com 'sentimento de vitória'
Reprodução/EPTV
LEIA TAMBÉM:
Entenda os crimes pelos quais 16 pessoas foram indiciadas pela PF
PF indicia 16 funcionários e ex-funcionários pela queda que matou 62
Quem são os indiciados pela PF
Exclusivo: caixa-preta de avião da Voepass revela piloto admitindo falha no sistema de degelo: 'Essa b** não tá funcionando'
Quem são os indiciados
Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024
Nelson Almeida/AFP
Profissionais com experiência e formação no setor da aviação e engenharia aeronáutica fazem parte dos 16 indiciados da Voepass indiciados pela Polícia Federal pelo desastre aéreo:
Entre os responsabilizados pelas investigações estão o dono da companhia de Ribeirão Preto (SP), José Luis Felicio e o diretor de manutenção Eric Cônsoli, apontado por ex-funcionários como uma figura de grande influência dentro da empresa antes da crise provocada pela queda do avião e do encerramento das atividades.
Confira os indiciados:
Edson Serra Martins
Luciano Alves de Macedo
Oderlino de Campos Figueiredo
John Major Viana
Marcos Hiroyuki Sato
Alex de Souza Leandro
William Schmidt Agatz
Juliano Flores Pacheco
Raphael Limongi de Figueiredo
Marcel Sarquis Moura
Tiago Passucci Morani
Carlos Alberto Costa
Eric Consoli
Rafael Gimenez Rodrigues
David da Costa Faria Neto
José Luiz Felício Filho
Clique aqui e entenda o que cada um deverá responder.
Em nota, a Voepass disse que aguarda a divulgação oficial do relatório da PF para conhecer integralmente seu conteúdo e se manifestar.
Depois do relatório da FAB, em julho, a companhia aérea afirmou que o acidente foi o episódio mais grave de sua história e destacou que prestou apoio às famílias das vítimas desde o primeiro momento — leia a nota na íntegra abaixo.
LEIA TAMBÉM
Cenipa aponta 'cultura de normalização de desvios' na Voepass
VÍDEO: simulação mostra voo da Voepass da decolagem à queda
Cenipa cita conversas pessoais de pilotos e 'esquecimento' do sistema de degelo
Relembre queda de avião que matou 62 pessoas em 2024
Anac diz que vai analisar recomendações em até 4 meses
Veja como foi divulgação do relatório em tempo real
Fabricante francesa altera manual de aeronave após queda em Vinhedo
Conversas na cabine
No fim de junho, representantes das famílias tiveram acesso, pela primeira vez, à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave. O documento integra o laudo produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), que embasa o inquérito da PF.
Ao final de quase 200 páginas, a conclusão do laudo da Polícia Federal é: a tragédia foi resultado da combinação entre falhas recorrentes no sistema de degelo, operação em uma área de formação severa de gelo, falhas na execução dos procedimentos previstos pelo fabricante e sucessivas barreiras de segurança que deixaram de funcionar antes do voo que terminou com a morte de 62 pessoas.
O documento destaca que o acidente foi precedido por uma sucessão de falhas recorrentes que envolveram diferentes pilotos e o despachante operacional, profissional que atua no solo e auxilia no planejamento do voo.
Segundo a perícia, tripulações anteriores omitiram panes graves no diário de bordo técnico para evitar que a aeronave ficasse parada, enquanto o Despachante Operacional de Voo (DOV) liberou a decolagem mesmo com equipamentos obrigatórios inoperantes e previsão de gelo severo na rota.
A análise da PF mostrou que a tripulação convivia com falhas no sistema de degelo, e o áudio da caixa-preta revelou o piloto reclamando antes da queda: "Essa bosta não tá funcionando, né?".
O relatório do Cenipa
Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo
Paralela à investigação da PF, o Cenipa apurou fatores que contribuíram para o acidente aéreo e divulgou um relatório. O órgão da Força Aérea Brasileira (FAB) fez dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda da aeronave.
🔎 Diferentemente do relatório final do Cenipa, que busca apontar fatores contribuintes e prevenir novos acidentes, o inquérito policial tem como objetivo apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia.
➡️ Entre os principais trabalhos realizados pelo Cenipa estão:
análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo);
reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave;
exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol;
análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente;
entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes;
estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia;
testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500;
análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos.
Segundo o Cenipa, também foram analisados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave e até as lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda.
Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP).
Divulgação/FAB
LEIA TAMBÉM:
EXCLUSIVO: avião teve falha omitida em diário de bordo horas antes de decolar, diz testemunha
Áudios inéditos mostram conversas entre pilotos e controle aéreo minutos antes da queda; OUÇA
Bilhete de amor, terço e alianças: objetos saem intactos da tragédia e viram relíquias para famílias enfrentarem saudade
Relembre o acidente
Protesto de familiares das vítimas da queda de avião em Vinhedo
Gabriella Ramos/g1
O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024.
O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP).
As 62 pessoas a bordo, incluindo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido.
Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007.
O que diz a Voepass
"A Voepass informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação, contando, desde 2012, com a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit), concedida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) às companhias aprovadas em rigorosa auditoria internacional de segurança operacional.
Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional.
A tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos, certificações e avaliações médicas regularmente atualizados, sem qualquer registro prévio que comprometesse sua aptidão para o exercício da função.
Desde o início das investigações, a Voepass colaborou integralmente com as autoridades, disponibilizando documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente.
A Voepass reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários".
VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região