Governo de SP planeja leiloar prédios históricos do Centro, como Hotel Esplanada e Cine Marrocos

  • 11/09/2026
(Foto: Reprodução)
Governo pode leiloar prédios emblemáticos no Centro de SP O governo de São Paulo planeja levar a leilão um conjunto de edifícios históricos no Centro de capital paulista, incluindo ícones arquitetônicos da região, como o Hotel Esplanada e o Banco de São Paulo, hoje ocupados por secretarias da administração estadual. O pacote também inclui o prédio do antigo Cine Marrocos, desativado há mais de três décadas e recém-incorporado ao acervo do estado após permuta com a prefeitura. A proposta ainda está em elaboração e prevê que os imóveis sejam vendidos com alguma destinação pré-definida em contrato, de modo a garantir a preservação do patrimônio tombado e estimular atividades como hotelaria e entretenimento, além de produção habitacional. A ideia é que os futuros proprietários realizem projetos de retrofit nos edifícios, conciliando suas características arquitetônicas originais com adaptação para novos usos. "Será um leilão com propósito, não é simplesmente vender para qualquer um. São edifícios que têm serventia na recuperação do Centro", explicou ao g1 Guilherme Afif Domingos, secretário especial de Projetos Estratégicos do governo paulista. O modelo ainda está sendo estudado e pode incluir mecanismos semelhantes a Parcerias Público-Privadas (PPPs) ou chamamentos para que interessados apresentem seus projetos para os imóveis. Edifício do antigo Hotel Esplanada faz parte do pacote de leilões planejado pelo Governo de São Paulo Leonardo Zvarick/g1 Os estudos para venda dos edifícios ocorrem paralelamente ao projeto de transferência da estrutura administrativa do estado para a região dos Campos Elíseos conduzido pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos). Cerca de 22 mil funcionários públicos que hoje trabalham em dezenas de prédios espalhados pela cidade devem se concentrar no novo complexo, que tem custo das obras estimado em R$ 6,1 bilhões e entrega prevista para 2030. Segundo Afif, os primeiros leilões devem acontecer no próximo ano e podem ajudar a custear parte das desapropriações necessárias para a implantação da nova sede do governo, estimadas em R$ 600 milhões. "São secretarias que podem ser mobilizadas antes da construção do centro [administrativo] sem grandes alterações, porque elas têm poucos funcionários", avalia. Para o arquiteto e urbanista Marcelo Ignatios, diretor da área de Patrimônio e Cidades do Instituto de Arquitetos do Brasil em São Paulo (IAB-SP), a intenção do governo de estabelecer encargos e destinações previamente definidas para os imóveis representa um avanço em relação a uma simples venda ao maior lance. Consórcio venceu em fevereiro o leilão para construir e fazer a gestão do novo centro administrativo de SP Ainda assim, ele avalia que este não é o melhor caminho para promover novos usos e estimular a requalificação do Centro. Segundo o especialista, o estado dispõe de instrumentos já consolidados – como concessões de longo prazo e fundos de investimento imobiliário voltados a ativos públicos – que permitiriam transferir a gestão dos prédios à iniciativa privada sem abrir mão da propriedade. O especialista questiona a conveniência de vender ativos públicos com valor histórico e localização privilegiada. Na visão dele, se a estratégia resultar em valorização imobiliária nos próximos anos, o ganho ficará integralmente com os futuros proprietários privados. "Por que o poder público vai vender na baixa e transferir para o privado 100% da valorização imobiliária? Não dá para entender." Na avaliação de Ignatios, caso o governo leve adiante a venda com encargos, o modelo precisaria incluir salvaguardas claras para proteger o interesse público. Entre elas, garantias de que as regras de tombamento que hoje incidem sobre os edifícios histórico não sejam revisadas pelos novos proprietários. O urbanista também defende usos alinhados às políticas de requalificação da região, especialmente iniciativas ligadas à produção habitacional. Fachada do edifício do antigo Banco de São Paulo, na Praça Antônio Prado, centro da capital Leonardo Zvarick/g1 Ignatios também afirma que o destino dos recursos deve ser orientado por objetivos de interesse coletivo. Ele defende que, caso a venda se confirme, os valores sejam reinvestidos em políticas públicas, como habitação social e educação básica, em vez de serem utilizados para acelerar as desapropriações necessárias à implantação do Centro Administrativo. Em nota enviada ao g1, o governo de São Paulo disse que "promove continuamente avaliações sobre seu patrimônio imobiliário, utilizando diferentes instrumentos de gestão previstos na legislação, conforme as características e a finalidade de cada ativo". A administração também afirma que a decisão de leiloar prédios históricos levará em conta destinação que "atenda interesse público e traga benefícios para a sociedade". A análise envolve levantamentos técnicos, análises patrimoniais e de viabilidade de uso conduzidos pela Subsecretaria de Patrimônio do Estado. Hotel histórico, cinema abandonado e antigo banco O principal eixo do projeto envolve os vizinhos Hotel Esplanada e Cine Marrocos, além de um galpão anexo que não tem proteção patrimonial e poderia ser demolido para dar lugar a um novo prédio. Para Afif, o conjunto "dá um start na recuperação" daquela região e pode se transformar em um polo de hotelaria, habitação e atividades culturais. Localizado nos fundos do Theatro Municipal de São Paulo, na Praça Ramos de Azevedo, o Hotel Esplanada foi inaugurado em 1923 e costuma ser chamado de "irmão paulistano" do Copacabana Palace, por ter sido projetado pelo mesmo arquiteto, o francês Joseph Gire. Por mais de três décadas, funcionou como hotel de alto padrão, e nos anos 1960 tornou-se a sede do grupo Votorantim. Em 2012, o edifício foi adquirido pelo governo paulista e passou a abrigar as secretarias estaduais de Agricultura e de Turismo, que juntas mantêm 621 funcionários no local. Com o leilão, a expectativa é que o imóvel retome sua vocação original e volte a ser explorado como empreendimento hoteleiro pela iniciativa privada. Fachada do antigo Cine Marrocos, no Centro de São Paulo Leonardo Zvarick/g1 A poucos metros dali, na Rua Conselheiro Crispiniano, está o antigo Cine Marrocos, anunciado em sua inauguração, em 1951, como o "mais luxuoso cinema da América do Sul". O glamour daquela época contrasta com o cenário atual. Sem uso regular desde o encerramento das atividades, nos anos 1990, o prédio passou por um longo período de abandono. O imóvel chegou a ser invadido por um movimento de moradia, mas a ocupação foi encerrada em 2016 após uma reintegração de posse movida pela prefeitura. Desde então, a imponente escadaria de mármore permanece escondida atrás de tapumes, enquanto o interior do edifício é utilizado como depósito. Com a requalificação planejada pelo governo estadual, a proposta é transformar a sala de cinema, com capacidade para cerca de 2 mil pessoas, em um espaço para espetáculos e converter a torre de 12 andares em moradias. O edifício do antigo Banco de São Paulo, na Praça Antônio Prado, atualmente abriga 185 servidores Secretaria de Esportes. Segundo Afif, o imóvel – inaugurado em 1938 para sediar uma das principais instituições financeiras da época – precisa de intervenções estruturais e de modernização para voltar a ter uso pleno. A intenção do governo é transferi-lo à iniciativa privada para que volte a cumprir um papel mais ativo na região central, com um "espírito de entretenimento, hotelaria e habitação", nas palavras do secretário. Salão do antigo Banco de São Paulo já foi aberto a visitação pública, mas atualmente está fechado Considerado um dos mais importantes exemplares da arquitetura art déco da capital, o edifício tem no térreo um dos seus principais atrativos: o salão da antiga agência bancária, decorado com pisos de mosaico, mármores, vitrais e esculturas. O espaço chegou a ser aberto para visitas em algumas ocasiões, mas permanece fechado ao público desde a pandemia de Covid. Em uma segunda etapa do projeto, o governo estadual também pretende leiloar o edifício Saldanha Marinho, atual sede da Secretaria da Segurança Pública (SSP). Segundo Afif, a transferência da pasta tende a exigir mais tempo e planejamento devido ao grande número de servidores que trabalham no local. Edifício Saldanha Marinho, no Largo de São Francisco, é a atual sede da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo Leonardo Zvarick/g1 A localização do prédio, no Largo de São Francisco, perto da tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), aumenta seu potencial para usos ligados à habitação estudantil. Esta é uma das possibilidades avaliadas pelo governo para o imóvel após sua transferência à iniciativa privada, segundo o secretário de Projetos Estratégicos. Outro prédio emblemático do Centro que deve ganhar novo uso é a Casa Caetano de Campos, na Praça da República, que há quase cinco décadas abriga a Secretaria de Educação. Inaugurado em 1894 com projeto do arquiteto Ramos de Azevedo, é um dos prédios mais simbólicos da educação paulista e é considerado um dos berços da USP. Segundo Afif, a proposta inicial de incluir o imóvel no pacote de leilões foi descartada. O plano atual é transformá-lo em uma escola modelo.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/09/11/governo-de-sp-planeja-leiloar-predios-historicos-do-centro-como-hotel-esplanada-e-cine-marrocos.ghtml


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