Estudo pago pela própria Prefeitura de SP diz que número máximo de foliões que cabem no Ibirapuera é de 290 mil e na Consolação, de 365 mil
12/02/2026
(Foto: Reprodução) Estudo da USP diz que máximo de foliões no Parque Ibirapuera é de 290 mil
Um estudo encomendado pela Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB), órgão da Prefeitura de São Paulo, em 2021, apontou a capacidade máxima simultânea dos principais circuitos de carnaval da capital paulista e a quantidade de infraestrutura necessária para atender os foliões.
O levantamento feito pela Fundação Para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE), ligada à Poli-USP, custou R$ 430.222,24 aos cofres da cidade e foi entregue no primeiro ano da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), apesar de ter sido contratado pela gestão Bruno Covas (PSDB), que faleceu em maio daquele ano.
O documento a que a GloboNews teve acesso afirma que o circuito do Parque Ibirapuera, na Zona Sul de SP, que no último final de semana chegou a reunir 1,2 milhão de pessoas durante a apresentação da cantora Ivete Sangalo, segundo estimativa da PM, tem capacidade de apenas 290 mil foliões simultaneamente.
No circuito da Rua da Consolação, onde no último domingo (8) houve tumulto, superlotação e briga, o estudo da FDTE diz que o limite máximo de foliões é de 365 mil, apontando o local onde cabe o maior número de pessoas na cidade (veja tabela abaixo).
O governador de SP, Tarcísio de Freitas (Republicanos) chegou a dizer que 1,5 milhão de pessoas foram aos blocos Baixo Augusto e do DJ Calvin Harris no domingo (8).
Capacidades estimadas máximas de circuítos de carnaval da cidade de São Paulo, segundo estudo da Fundação Para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE), ligado à Poli-USP.
Reprodução
O g1 procurou a gestão Nunes e questionou se os parâmetros do estudo foram considerados para organizar a folia de rua deste ano na cidade.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo não respondeu se usou o levantamento como base. Apenas respondeu que "realizou neste ano adequações na infraestrutura do Carnaval de Rua para otimizar a operação do evento, sem qualquer prejuízo ao padrão de excelência da festa, já confirmada em edições anteriores".
Nas contas da entidade que fez o estudo, os 22 polos de cortejo de carnaval existentes naquela época na cidade tinham a capacidade de reunir 2,88 milhões de pessoas por dia de apresentações.
Capacidades estimadas máximas de circuítos de carnaval da cidade de São Paulo, segundo estudo da Fundação Para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE), ligado à Poli-USP.
Reprodução
Em 2021, a Poli-USP havia dito para a gestão Nunes que a cidade tinha capacidade para reunir 14 milhões de foliões nos principais circuitos da cidade, nos oito dias de carnaval oficial bancado pela prefeitura. Naquele ano, esse número chegou a ser divulgado pela gestão municipal.
Neste ano, a estimativa da prefeitura é que ao menos 16,5 milhões de pessoas participem dos 627 cortejos oficiais que devem acontecer na cidade no pré, pós e no carnaval de São Paulo.
Banheiros químicos
Multidão acompanha o trio da cantora Ivete Sangalo no Parque Ibirapuera, na Zona Sul de SP, no sábado (7).
Divulgação/PMSP
O estudo da FDTE também estimou que o número mínimo de banheiros necessários para atender o público dos blocos é de 1 banheiro químico para cada grupo de 900 foliões.
Considerando a estimativa para este ano de 16,5 milhões de pessoas, o número mínimo de banheiros necessários seria de 18.333 nos oito dias de carnaval.
No entanto, a SPTuris já disse ao g1 que o número total contratado neste ano foi de 16 mil. No ano passado, esse número foi de 30 mil banheiros, segundo números divulgados pela própria empresa municipal de turismo, responsável pela organização dos cortejos de rua.
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Por meio de nota, a Prefeitura de São Paulo disse que "para este ano, estão previstas inicialmente 16 mil diárias de banheiros químicos para atender todo o período de festa, que poderão ser ampliadas de acordo com a demanda. Essa quantidade foi definida após avaliações, bloco a bloco, por parte da SPTuris".
"Essa quantidade foi definida após avaliações, bloco a bloco, por parte da SPTuris. Em 2025, a licitação realizada à época autorizou o município a contratar até 38.500 diárias de banheiros químicos, sendo que foram contratadas, de fato, cerca de 24 mil diárias para todo o período da festa", disse.
A prefeitura informou ainda que "o preço dos banheiros neste ano diminui em relação a 2025. O banheiro padrão era R$ 388 em 2025 e passou para R$ 272 este ano, enquanto o banheiro para pessoas com deficiência custava R$ 400 e passou para R$ 235".
Recomendações para a organização
Modelagem da Fundação Para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE) para calcular a capacidade estimada máximas de circuítos de carnaval da cidade de São Paulo.
Reprodução
No documento, a fundação também fez uma estimativa de que o carnaval de rua de São Paulo tem capacidade de 15 a 20 milhões de pessoas nos oito dias de folia, mas ressaltou que a infraestrutura precisa acompanhar a ampliação da participação dos foliões.
A entidade fez as seguintes recomendações à gestão municipal:
Manter grandes artistas simultaneamente em regiões diferentes para distribuir a demanda do público;
Incentivar a política de divulgação de polos descentralizados, incluindo em 2022 novos locais como Av. Abel Ferreira, Rua Bom Pastor e Sangirardi como circuitos oficiais de folia;
Usar drones para controle das multidões e implantação de centrais de controle descentralizadas para decisões mais ágeis;
Focar na infraestrutura de desfiles descentralizados e convidar artistas de blocos de São Paulo para campanhas de divulgação do Carnaval descentralizado.
Para a professora Mariana Aldrigui, doutora em Engenharia da Poli-USP e pesquisadora em Turismo Urbano da universidade, “há um superdimensionamento” dos números de foliões que participam dos blocos que não tem proximidade com a realidade desde 2018.
Em 2018, após aquela tentativa de carnaval na 23 de Maio, o número de foliões começou a ser contado não por pessoa, mas considerando a estimativa dos blocos. Um bloco, para captar patrocínio, pode muito bem inflar esses números pra cima, numa jogada de marketing importante até pra sobrevivência desses blocos.
Tumulto em bloco com Calvin Harris em SP
Estadão/g1
Segundo ela, para a prefeitura "esses números inflados servem pra dizer que tem o maior carnaval do Brasil, sempre do ponto de vista do marketing e da propaganda".
"Os estudos da Poli-USP mostram que seis pessoas por metro quadrado é uma situação impossível de se movimentar. É um metrô lotado às seis horas da tarde. É uma situação desconfortável que não dá para dançar ou se mover. Então, é impossível matematicamente caber mais de 1 milhão de pessoas em certos circuitos", diz.
Foliona escalar semáforo para fugir de multidão em bloco do Calvin Harris em SP
Para ela, "são números irreais e até megalomaníacos". "Ninguém contesta porque é bom pros blocos, pra prefeitura e para as empresas dizerem que arrastou 1 milhão, 1 milhão e meio de pessoas. Mas a gente sabe que os circuitos não têm essa estrutura", afirma Mariana Aldrigui, que estuda os fluxos de turistas e multidões na cidade de São Paulo.
Aldrigui aponta que nos blocos como da cantora Ivete Sangalo e do DJ Calvin Harris, no pré-carnaval do fim de semana passada, claramente teve mais gente que os circuitos comportavam e, por isso, houve pisoteamento e derrubada de grades na Rua da Consolação.
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Ela aponta o uso de gradis por parte da Prefeitura de SP nesses circuitos como principal fator de erro da organização do evento.
"Não é desfile de escola de samba que se fecha um portão e todo mundo sai da avenida. A sensação que eu tenho é que na mesma mesa de planejamento não estão os especialistas em segurança de multidões e os organizadores do evento", critica.
Na avaliação dela, seria preciso começar com uma "gestão mais inteligente de multidão", como saída do estádio de futebol e shows, e atender as medidas de segurança.
"Não se pode ignorar que existem forças distintas num evento assim, mas também é garantir que a cidade não seja palco de uma destruição imensa [do carnaval], por conta de uma falha de inteligência", declara.
Mudanças anunciadas
Prefeitura de SP diz que vai ampliar saídas e colocar agentes dentro dos trios no carnaval após superlotação em megablocos
Após os episódios do pré-carnaval, a Prefeitura de São Paulo afirmou na segunda-feira (9) que vai reforçar o plano de contingência do carnaval de rua no próximo fim de semana após a superlotação registrada nos megablocos na Rua da Consolação, no Centro.
Entre as medidas anunciadas estão a ampliação das saídas para o público e a presença de um agente da prefeitura dentro de cada trio elétrico dos megablocos.
Segundo a administração municipal, os agentes vão acompanhar o andamento dos desfiles, verificar possíveis atrasos e acionar intervenções imediatas em caso de risco, com o objetivo de evitar situações como as registradas no pré-carnaval.
Ainda de acordo com a prefeitura, o esquema de reforço para o carnaval também prevê aumento do número de saídas em outros grandes circuitos, como o do Ibirapuera, e o reposicionamento de postos de saúde e equipes de atendimento para agilizar o socorro aos foliões.
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