Escondido sob a terra: cientistas descobrem novo anfíbio na Mata Atlântica

  • 10/09/2026
(Foto: Reprodução)
Siphonops maria, nova cecília descrita pela ciência Miguel Relvas Ugalde A análise de exemplares preservados em museus biológicos levou um grupo de pesquisadores à descoberta de uma nova espécie de cecília no Brasil: a Siphonops maria. O anfíbio ocorre na Mata Atlântica do Rio de Janeiro e foi identificado a partir de características morfológicas e análises moleculares. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Comumente confundidas com minhocas ou serpentes, as cecílias, também conhecidas popularmente como "cobras-cegas", pertencem à ordem Gymnophiona, um dos grupos de anfíbios menos conhecidos pela população e também pela ciência. “Dentro do grupo de anfíbios elas estão entre os menos estudados. No Brasil existem três grupos de anfíbios viventes, os anuros que são os sapos, rãs e pererecas, as salamandras e as cecílias. Elas não são tão populares, pois o número de espécies é menor do que dos outros grupos e, além disso, são bichos com comportamentos peculiares. Geralmente vivem soterradas. Existem algumas que são aquáticas, mas de uma maneira geral são bichos raros de serem encontrados”, explica Felipe Toledo, professor titular da Unicamp e um dos autores do artigo sobre a descrição da nova espécie. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: VISITANTE DA ARGENTINA: Pinguim vindo da Patagônia é resgatado com baixa temperatura em SP HARPIA: 'Eu não imaginava', diz observador que filmou casal da maior águia das Américas com câmera trap 'GUNS N' SNAKES'? Nova serpente é descoberta e ganha nome em homenagem a um famoso guitarrista de rock Coleta em 2015 As análises que levaram à descrição começaram em 2022, quando Adriano Maciel, doutor em Zoologia e especialista na taxonomia das cecílias, dedicou-se ao estudo de espécimes preservados no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Um indivíduo coletado em 2015, porém, já havia chamado a atenção dos pesquisadores. “O holótipo, ou seja, o exemplar utilizado para a descrição da espécie foi coletado em 2015, no Parque Nacional das Serra dos Órgãos, no município de Guapimirim (RJ) durante um trabalho de campo realizado por Leandro Drummond e Paulo Melo-Sampaio. Na época que eles me contataram acreditávamos inicialmente que a espécie se tratava de uma cecília já conhecida a Siphonops hardyi, porém ao analisar melhor, verificamos que a contagem dos anéis corporais e a dentição eram diferentes”, comenta o pesquisador. Para descrever a nova espécie, pesquisadores de diferentes instituições participaram de uma força-tarefa. O grupo analisou outros espécimes considerados semelhantes e que também ocorrem na Mata Atlântica. Parece minhoca, mas é anfíbio: cientistas descobrem nova espécie na Mata Atlântica Leandro Drummond Entre os materiais usados na comparação estavam exemplares preservados no Museu de Diversidade Biológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Essas espécies que estavam no Museu da Unicamp foram utilizadas num viés de comparação, pois quando você tem uma espécie nova, é necessário apresentar o que ela possui de diferente de outras espécies que já são conhecidas. Nós tínhamos esse material aqui para comparar e auxiliar nessa parte, também foi oferecido tecido para realização da análise molecular”, pontua Toledo. A análise conjunta dos diferentes indivíduos permitiu aos cientistas reunir as evidências necessárias para reconhecer a nova espécie. “Após todas as etapas do estudo descobrimos que tínhamos uma espécie nova para descrever e duas linhagens evolutivas não proximamente relacionadas que se assemelhavam à Siphonops hardyi, e que poderão vir a ser descritas em um próximo estudo. Desta forma, descrevemos a Siphonops maria, como um de nossos resultados”, explica Adriano. Veja o que é destaque no g1: Agora no g1 Sobre a nova espécie No Brasil, pelo menos 41 espécies de cecílias são conhecidas pela ciência. Mais da metade delas são exclusivas do território brasileiro, especialmente dos domínios naturais da Amazônia e da Mata Atlântica. A Siphonops maria, descrita em 2026, ocorre nas regiões central e oeste do estado do Rio de Janeiro. A espécie pode ser encontrada em remanescentes florestais de Mata Atlântica e passa a maior parte do tempo escavando túneis no solo. “É uma espécie de cecília que vive no solo de áreas florestais”, afirma Adriano. Para identificar a nova espécie, os pesquisadores analisaram características como a posição dos tentáculos sensoriais em relação aos olhos e às narinas, os tipos de anéis corporais presentes ao longo do corpo, a presença de três a quatro séries dentárias e a quantidade de dentes em cada série, além de outras características da cavidade bucal. De acordo com o pesquisador, o nome cecília deriva do latim caecus, que significa “cego”. Esses anfíbios receberam esse nome por possuírem olhos com função reduzida. Essa característica também foi analisada pela equipe. “Verificamos se os olhos estão aparentes através da epiderme ou se estão escondidos por camada óssea”, comenta Adriano. Os pesquisadores também analisaram características morfológicas, como as cores ao longo do corpo. Outros recursos foram fundamentais para comprovar a nova espécie, entre eles a tomografia computadorizada de alta resolução e os estudos filogenéticos. “A filogenia recupera a história evolutiva das espécies apontando como elas se relacionam e se formam linhagens evolutivamente independentes. Nesse caso realizamos um estudo filogenético com dados moleculares (DNA)”, acrescenta. A conclusão foi que a Siphonops maria se diferencia das demais espécies do gênero pela contagem de anéis corporais, extensão de dentes pré-maxilares, padrão de coloração do corpo e características dos ossos da cabeça. “Além disso, a espécie foi recuperada como uma linhagem evolutiva independente das demais espécies de Siphonops na filogenia molecular do nosso estudo” pontua o doutor em Zoologia. O estudo também trouxe outro resultado relevante: todas as espécies do gênero Luetkenotyphlus passaram a integrar o gênero Siphonops. “A partir da filogenia, descobrimos que o gênero Luetkenotyphlus deve ser considerado sinônimo de Siphonops, pois indivíduos com características tradicionalmente atribuídas a Siphonops, agruparam com indivíduos com características tradicionalmente atribuídas a Luetkenotyphlus, isso mostra que as características que antes eram consideradas exclusivas do primeiro gênero citado não definem uma linhagem evolutiva independente, não justificando o reconhecimento dos dois grupos como gêneros distintos”, pontua Maciel. Nova espécia de cecília sobre folhas Miguel Relvas Ugalde Homenagem às 'Marias' Além da descoberta, os pesquisadores precisaram escolher um nome para a nova espécie. A opção por Siphonops maria surgiu como uma homenagem a uma mulher chamada Maria, ligada à história da região que hoje compreende o Parque Nacional da Tijuca, área de ocorrência de alguns dos espécimes analisados no Museu Nacional. A escolha acabou se tornando também uma homenagem às milhões de brasileiras que carregam o mesmo nome. “A região que hoje compreende o Parque Nacional foi quase completamente desmatada no século XVIII, mas passou por um importante processo de reflorestamento no século XIX, por ordem de Dom Pedro II, durante o Império do Brasil. Durante uma leitura sobre a área, encontrei uma reportagem sobre uma homenagem a 11 pessoas escravizadas que fizeram o plantio de milhares de árvores na área. Dentre as 11, apenas uma mulher, de nome Maria. Como já havia pensado em homenagear uma personalidade fluminense e por ter crescido o interesse pelo histórico do Parna Tijuca, nada mais apreciável que homenagear uma das responsáveis pela existência do que podemos apreciar ao visitar o local atualmente”, explica Adriano Maciel. O pesquisador comenta ainda que, de acordo com o IBGE, existem mais de 11 milhões de Marias brasileiras. Entre elas estão mães, irmãs, avós, tias, primas e esposas dos próprios autores da descoberta. Por isso, o nome escolhido ganhou um significado mais amplo: além de reconhecer uma mulher que, durante o sofrimento imposto pelo sistema escravista, contribuiu para a recuperação da natureza, a homenagem busca representar o feminino em sua amplitude. “Além disso, como quase todo mundo conhece ou tem uma pessoa querida chamada Maria, o nome também pode ser uma forma carinhosa de chamar atenção para a “cecília-de-maria”, um possível nome vernáculo para popularizar as cecílias. A descoberta de uma espécie ainda pouco conhecida pela população reforça a importância dos fragmentos florestais presentes em unidades de conservação e a necessidade de proteção da Mata Atlântica. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/09/10/escondido-sob-a-terra-cientistas-descobrem-novo-anfibio-na-mata-atlantica.ghtml


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