Documentário gravado no litoral do PR revela 'invasão silenciosa' e riscos à biodiversidade
11/08/2026
(Foto: Reprodução) Documentário gravado no litoral do PR revela 'invasão silenciosa' e riscos à biodiversidade
Gabriel Marchi
Nem todas as ameaças à biodiversidade e à saúde do planeta são visíveis ou facilmente percebidas. Para chamar a atenção para um problema que se agrava e ainda é pouco conhecido pela população, uma equipe voltada à conservação produziu o documentário Invasão Silenciosa.
Gravado no litoral do Paraná, o filme mostra como o Complexo Estuarino de Paranaguá, apesar da riqueza natural, sofre diferentes impactos ambientais. Entre eles está a invasão de espécies não nativas transportadas pelo tráfego marítimo.
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“Estamos falando de ostras, mexilhões e siris, uma fauna marinha que, em primeira vista, não apresenta ameaça alguma. Para revelar como elas afetam a vida local foi necessário exercitar a criatividade fotográfica, assim foi possível mostrar esses seres impactantes e, em alguns momentos, assustadores pelo grau de ameaça que representam. Encontrá-los não foi difícil, pois, infelizmente, estão por toda parte.”, comenta Gabriel Marchi, diretor, fotógrafo e editor do filme.
As espécies invasoras estão entre os principais motivos de perda de fauna e flora nativas no mundo. No Paraná, a invasão marinha é tema de estudos realizados por instituições como UNESPAR, UFPR e IFPR, mas ainda é pouco conhecida pela população em geral.
Aproximação da realidade
O documentário busca aproximar o tema da sociedade e mostrar a importância do problema.
“A mensagem principal que gostaríamos de deixar é que a sociedade precisa se posicionar e compreender que o problema das espécies invasoras não é um debate acadêmico distante. Ele afeta a vida de todos. Não apenas no caso de ameaças óbvias, como o mosquito da dengue, mas também com esses organismos marinhos invisíveis que desestruturam ecossistemas, encarecem a manutenção de estruturas urbanas e portuárias, prejudicam a pesca local e reduzem a qualidade ambiental.”, acrescenta Pablo Damian Borges Guilherme, Doutor em Ecologia e Conservação e Professor Adjunto da UNESPAR campus de Paranaguá.
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Documentário gravado no litoral do PR revela 'invasão silenciosa' e riscos à biodiversidade
Gabriel Marchi
Segundo Pablo, já existem mais de 60 espécies não nativas associadas às atividades marítimas na região. Algumas delas afetam diretamente a economia e o cotidiano das comunidades locais.
No litoral do Paraná, o projeto concentra os estudos em organismos bentônicos de substrato consolidado, ou seja, aqueles que vivem fixos em superfícies rígidas, como rochas, raízes de mangue e estruturas artificiais de concreto, ferro, plástico e madeira.
'Invasão' existe há décadas
A introdução de espécies não nativas e exóticas ocorre há décadas em zonas portuárias. Com o deslocamento de navios pelo mundo, organismos podem viajar incrustados nos cascos ou na água de lastro das embarcações e chegar a outros territórios.
Além de estudar esses organismos nos portos do litoral paranaense, os pesquisadores tentam entender os impactos da invasão sobre as comunidades tradicionais da região.
Um dos exemplos é a ostra-de-capuz (Saccostrea cucullata).
“Ela foi registrada pela primeira vez no Paraná em 2019, já é um organismo dominante em muitos costões dentro da baía de Paranaguá, substituindo ostras nativas e prejudicando pescadores que coletam e vendem ostras. Essa ostra invasora tem tamanho menor, sabor inferior, é muito mais difícil de abrir e pode causar ferimentos”, explica Rafael Metri, biólogo, professor da UNESPAR e pesquisador da Associação MarBrasil.
‘Invasão Silenciosa’: filme mostra ameaça 'invisível' no litoral do PR
Divulgação
Pescadores também ajudam pesquisadores
O filme também mostra o impacto da invasão sobre a comunidade local. A história de Romildo Rosário, pescador que acompanha de perto essa realidade, aparece como parte do documentário.
Romildo também contribui com informações e troca experiências com os pesquisadores.
“Ele está a frente do seu tempo e sua consciência sobre o alerta que devemos ter é impressionante. Encontrá-lo foi um lapso de esperança, pois ele entende o problema e está em alerta, e em comunhão com pesquisadores, um exemplo disso é que ele foi o responsável por encontrar e descrever uma das espécies invasoras”, acrescenta Gabriel Marchi.
O objetivo do trabalho não é apontar culpados, mas mostrar o que está acontecendo. Segundo a equipe, existe um problema que envolve a biodiversidade marinha e a vida da sociedade, mas que ainda não recebe o debate necessário.
‘Invasão Silenciosa’: filme mostra ameaça 'invisível' no litoral do PR
Gabriel Marchi
"Nosso imaginário geralmente liga as grandes ameaças vindas oceano a coisas como ataques de tubarão, tsunamis, furacões ou até o derretimento das geleiras. Só que a bioinvasão acontece de um jeito bem diferente, quase sem ser notada. Ela vai avançando em silêncio, e os efeitos aparecem aos poucos, a ponto de a gente acabar achando que é algo normal. Quando percebemos, já houve mudanças grandes na região, algumas irreversíveis. O pior de tudo é que tercerizamos às ameaças do oceano, culpando o próprio pelos desastres, mas esquecemos (talvez por arrogância ou ignorância) que somos uma vertente importante, senão a maior delas, na causa desses desastres. Por isso, fazer este trabalho é justamente tentar mostrar uma ameaça que é menos visível, mas que pode ser tão grave quanto as outras.", comenta Marchi.
Compartilhar histórias como a de Romildo e mostrar a busca dos pesquisadores por respostas e resultados é uma forma de aproximar o tema das pessoas e, consequentemente, buscar soluções.
"Proteger a biodiversidade local é proteger a nossa própria economia e qualidade de vida. Por isso, informar-se e cobrar políticas públicas e projetos de gestão dos tomadores de decisão é um passo fundamental.", pontua Pablo.
Sobre o filme
Invasão Silenciosa foi produzido pela Olhar Nativo e é um dos produtos do projeto Marés de Mudança, executado pela FUNESPAR com recursos do Programa Biodiversidade do Litoral do Paraná, gerido pelo FUNBio.
O lançamento do documentário será no dia 22 de agosto, às 15h, na Cinemateca de Curitiba.
Os ingressos podem ser adquiridos por meio de um link do aplicativo Sympla. As vagas são limitadas.
Após a exibição, o documentário ficará disponível gratuitamente por um mês no YouTube. A equipe também avalia futuras exibições em outras localidades.
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