De garçom a rastreador de onças: o brasileiro que vive entre predadores nas Américas e busca salvar espécies

  • 13/02/2026
(Foto: Reprodução)
Ele 'conversa' com onças: o brasileiro que vive entre predadores nas Américas Lucas Souza, 36 anos, brasileiro do Mato Grosso do Sul. Esse é o estudante de biologia que começou a trilhar seu sonho como garçom de pousada, mas logo trocou as bandejas pelos rastros de onças, pumas, harpias e condores. Com uma jornada que passa pelas fronteiras da América do Sul, ele busca realizar seu sonho de atuar com os gigantes da natureza pelo mundo. Uma vida "selvagem" Lucas Souza trabalhou como guia e rastreador de pumas na América do Sul Arquivo pessoal / Lucas Souza O silêncio na Patagônia Chilena tem uma textura diferente. É um vazio preenchido apenas pelo assobio do vento que corta os picos nevados das Torres del Paine. Ali, onde o fôlego humano condensa em pequenas nuvens de cristais, Lucas Souza, 36 anos, aprendeu uma das lições mais valiosas da sua vida: a natureza não tem pressa. Ela não se ajusta ao relógio dos homens; é o homem quem precisa aprender a esperar pelo tempo dela. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Nascido em Três Lagoas (MS) e criado entre as pastagens e o horizonte largo das fazendas onde os pais trabalhavam, Lucas hoje cursa o terceiro semestre de Biologia. Mas, para ele, o diploma é a sistematização de um conhecimento que já estava gravado na sola das botas. Antes dos livros, veio o barro. Antes da academia, veio o rastro. Veja mais do Terra da Gente: ASSISTA: Brasileira reúne 3 anos de vídeos e revela o 'canto' de aves no Japão PIMENTA-DE-MACACO: Planta do quintal ajuda contra inflamações, combate fungos e afasta a dengue PAIXÃO: Morador cria projeto e flagra onças, gavião caçando cobra e a "vida secreta" da mata em MG A faísca e o "corre" Alguns dos resgistro do estudante ao longo de sua jornada Arquivo pessoal / Lucas Souza A história de Lucas com o mundo selvagem começou como um segredo compartilhado entre uma criança e a terra. "Enquanto outras crianças brincavam de carrinho, eu passava horas observando formigas trabalhando e pássaros pousando. Eu dizia que queria voar como eles", recorda. A inspiração ganhou rosto e nome em 2005, quando ele viu pela primeira vez o biólogo Richard Rasmussen na televisão. "Eu olhava para ele e repetia: 'Quero ser igual a esse cara'. Aquela energia intensa e autêntica se transformou em objetivo." Mas o caminho entre o sofá da sala e a selva não foi uma linha reta. Para chegar perto da fauna, Lucas aceitou o "trabalho de apoio". Foi garçom em hotel-fazenda e carregador de malas. Enquanto servia turistas à noite, usava o dia para observar os guias, carregar equipamentos e, nas folgas, embrenhar-se no mato com câmeras fotográficas e cadernos de anotação. Era o estágio invisível de quem sabia exatamente onde queria chegar. O primeiro encontro: a confiança no olhar Lucas rastreou pumas (onças-pardas), na América Latina Arquivo pessoal / Lucas Souza Foi no Pantanal que o destino resolveu testar o aprendiz. Sozinho, checando câmeras de monitoramento, Lucas deu de cara com um macho de onça-pintada a apenas dez metros de distância. O medo, natural e humano, durou apenas o tempo de um suspiro. "Fiquei imóvel. Apenas olhando para ele. Em pensamento, eu dizia que não queria fazer mal, e sentia que ele também não queria. Havia uma confiança silenciosa entre nós. Não foi sorte, foi respeito e energia", conta Lucas. Monitoramento de puma feito pelo estudante Arquivo pessoal / Lucas Souza Ali, ele entendeu que possuía uma intuição rara — um dom que ele chama de "conexão". Essa sensibilidade o levou a lugares que muitos apenas veem em documentários: das copas das árvores da Amazônia, em busca da majestosa harpia, às montanhas rochosas do Chile, no rastro do puma e do condor-andino. A escola da mata e os mentores Alguns dos resgistro do estudante ao longo de sua jornada Arquivo pessoal / Lucas Souza Se a faculdade agora lhe dá os números, a mata lhe deu os sentidos. Com mentores como o peruano Miguel Ajahuana e o veterinário venezuelano Dr. Alexander Blanco, Lucas refinou a arte de rastrear. Ele aprendeu que um rastro de puma no gelo exige uma leitura de terreno completamente diferente de uma pegada de onça na lama pantaneira. Falgra de onça feito pro Lucas. Arquivo pessoal / Lucas Souza "Entender o comportamento é a base. Saber por que um animal arranha uma árvore ou por que um pássaro segue as formigas de correição. Se a gente não entende os detalhes, não rastreia direito. Às vezes, sinto a presença do bicho antes de vê-lo. É um silêncio estranho, um alerta de um pássaro", explica. Essa convivência exige sacrifícios que poucos estão dispostos a enfrentar. São horas de imobilidade absoluta, sob o ataque de carrapatos, pernilongos e o sol impiedoso, apenas para garantir que um fotógrafo consiga o registro perfeito ou que um projeto de conservação colete dados vitais. "Convivência é aprender a esperar. Não é o animal que tem que ter paciência com a gente. Sou eu que preciso ter paciência com ele." Foto 1: Lucas com Angelito, mateiro experiente / Foto 2: Aqui trabalhando com onças no Pantanal Arquivo pessoal / Lucas Souza Do rastro ao registro: a ponte para o futuro Mesmo com uma bagagem que inclui o monitoramento de condores que "dançam no ar" e encontros com harpias que fazem a mata silenciar, Lucas sentiu que precisava de mais. A decisão de cursar Biologia aos 36 anos veio da necessidade de unir a prática ao rigor científico. Trabalho de monitoramento de fauna Arquivo pessoal / Lucas Souza "A ciência me ensinou a transformar intuição em informação comprovada. Hoje entendo os dados, os impactos a longo prazo e que conservar não é só proteger o animal, mas todo o ecossistema", diz ele, que agora sonha em levar sua experiência para os projetos de conservação na África. Para Lucas, a vida é um ciclo de aprendizado contínuo. Ele, que já carregou malas, hoje carrega a responsabilidade de inspirar novos conservacionistas. Seu conselho para quem olha para a floresta com o mesmo brilho nos olhos que ele tinha na infância é simples: "Não importa onde você esteja hoje, não desista. Cada passo simples faz parte da construção de algo maior. Respeite a natureza e respeite o seu processo. Se o sonho é verdadeiro, persista, porque é possível transformar vontade em realidade." O "nômade da natureza" segue sua trilha. Onde quer que haja um rastro na terra ou um voo no céu, Lucas Souza estará lá, observando, respeitando e, acima de tudo, esperando o tempo do mundo. Lucas publica alguns flagras em seu perfil, no Instagram. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/02/13/de-garcom-a-rastreador-de-oncas-o-brasileiro-que-vive-entre-predadores-nas-americas-e-busca-salvar-especies.ghtml


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