Conhecido no paraquedismo de Boituva, instrutor morre após complicações de pneumonia: 'Era a vida do meu pai', diz filho
23/07/2026
(Foto: Reprodução) Último salto entre pai e filho ocorreu durante o estágio do curso de João
Um paraquedista que morava e trabalhava em Boituva (SP), considerada a capital nacional do paraquedismo, morreu no domingo (19) em decorrência de complicações causadas por uma pneumonia.
Aos 44 anos, Rafael de Oliveira Souza, conhecido no meio esportivo como Tesouro, dedicou grande parte da vida ao paraquedismo. A paixão pelo esporte começou ainda na juventude, incentivada por um tio materno, e acabou transformando a trajetória de toda a família.
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Em entrevista ao g1, o filho dele, João Ortiz, contou que o pai conheceu o paraquedismo aos 20 anos, após ser convidado por um tio para acompanhar um curso em Pindamonhangaba (SP).
"O meu pai cresceu com um tio dele, irmão da mãe dele. Esse tio gostava muito de corrida de carro, Fórmula 1, kart, corrida de racha, e sempre levava o meu pai para acompanhar. Eles chegaram a trabalhar juntos, vendendo livros. E um dia esse tio falou pra ele eue estava indo fazer um curso de paraquedismo. Meu pai foi junto e, vendo aquilo, acabou que quis fazer o curso também", relata.
Na época, o tio de Rafael interrompeu o curso após sofrer um acidente de trânsito, mas ele decidiu seguir em frente e, aos poucos, conquistou a formação como paraquedista.
"Meu pai continuou devagarinho, fazia um salto por mês, até se formar, demorou bastante tempo pra se formar. Nesse meio tempo, ele conheceu outras pessoas fazendo o curso de paraquedismo, e um desses caras tinha feito o curso de instrutor e falou pro meu pai que Boituva era o epicentro do esporte, tinha muita oportunidade de trabalho",
Último salto entre pai e filho ocorreu durante o estágio do curso de João
Reprodução
Mesmo enfrentando dificuldades financeiras, Rafael decidiu apostar no sonho de viver do paraquedismo. Para investir na carreira, vendeu uma casa da família e usou o dinheiro para viajar aos Estados Unidos, onde concluiu os saltos necessários para obter a certificação de instrutor.
De volta ao Brasil, se estabeleceuprofissionalmente em Boituva, onde passou a atuar como instrutor e formou dezenas de novos paraquedistas.
"Depois que ele fez o curso, já ingressou na carreira, começou a fazer salto de cameraman, que é filmar o salto duplo. Ele começou fazendo só o vídeo, depois fez curso de salto duplo, de instrutor tandem, que é para levar um passageiro com você. Depois fez a profissionalização de instrutor AFF, que é pra você formar novos paraquedistas desde o início. E a partir daí a carreira dele deslanchou", detalha o jovem.
Rafael de Oliveira Souza se tornou instrutor de saltos de paraquedas e trabalhava em Boituva (SP)
Arquivo Pessoal
Anos depois, em 2021, Rafael retribuiu o incentivo recebido na juventude e participou da formação do tio como paraquedista, fortalecendo a ligação dos dois com o esporte.
"O tio Gil falou que queria começar mais uma vez o curso. Na época, meu pai estava trabalhando em escola de paraquedismo em Boituva e conseguia formar ele. O tio Gil começou o curso, fez o curso totalmente de novo, porque já fazia muito tempo que ele saltava".
No entanto, ainda em 2021, o tio de Rafael morreu após um acidente durante um salto. Na época, Rafael assumiu a oficina mecânica do tio em São José dos Campos (SP).
"Ele [o tio] acabou fazendo uma curva um pouco mais baixa, bateu no chão e acabou vindo a falecer. Nisso, ligaram para o meu pai, e assim, ele ficou desolado. O tio Gil tinha uma oficina, e o meu pai se sentiu um dever de continuar o que ele tinha começado. Ele se mudou para São José dos Campos de novo, abandonou o paraquedismo, continuou tocando oficina lá".
Longe do paraquedismo, Rafael não conseguiu se adaptar à rotina na oficina mecânica. A mudança afetou seu bem-estar, até que recebeu um convite para voltar a Boituva e assumir o cargo de instrutor e coordenador de uma escola de paraquedismo.
"O paraquedismo foi uma salvação na vida dele. Tudo o que ele conquistou, tudo o que deu para mim, para minha mãe e para as minhas irmãs foi graças ao paraquedismo", afirmou João.
Pneumonia
João esclareceu que o pai não morreu em decorrência de um acidente de paraquedas. Segundo ele, Rafael começou a sentir dores após um pouso e acreditava ter sofrido uma fratura na costela. Dias depois, caiu de uma escada enquanto trocava uma lâmpada, mas não comentou o acidente com a família.
"Passou menos de uma semana, num sábado, ele chegou em casa com o nariz escorrendo. Como ele tinha rinite, a gente achou que era a mesma coisa de sempre. Domingo ele foi trabalhar, voltou para casa bem mais cedo e falou que estava com muita dor de cabeça. Segunda-feira, piorou um pouco e aí decidimos levar ele no médico", relembra João.
Profissional morreu após complicações de pneumonia, aos 44 anos, em um hospital de Sorocaba (SP)
Arquivo Pessoal
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Rafael foi diagnosticado com pneumonia e teve o quadro agravado rapidamente. Ele foi internado, transferido para a Unidade de Terapia Intensiva, em Sorocaba, permaneceu 11 dias entubado e morreu em decorrência de uma sepse pulmonar causada por uma pneumonia grave
Segundo João, os médicos acreditam que as dores atribuídas à suposta lesão na costela já eram, na verdade, os primeiros sinais da pneumonia.
"Essa dor que ele estava sentindo, achando que era da costela quebrada, já devia ser da pneumonia dando o indício. E a hora que agravou, já estava um quadro muito grave, gravíssimo. E aí veio acontecer tudo isso", explica o filho.
De pai para filho
João seguiu os passos do pai desde a infância. Aos 12 anos, após a mudança da família para Boituva, começou a trabalhar na área de paraquedismo, fechando e dobrando paraquedas. Quatro anos depois, fez o curso de paraquedista ao lado de Rafael, que foi seu instrutor durante toda a formação.
"Isso aqui é a minha vida, era a vida do meu pai. Esse amor continua de pai para filho e, com certeza, vou passar isso para o meu filho", disse.
João seguiu os passos do pai e se formou em diversas modalidades de saltos de paraquedas
Arquivo Pessoal
O apelido "Tesouro", pelo qual Rafael era conhecido na comunidade do paraquedismo, surgiu de forma espontânea durante uma viagem aos Estados Unidos. Durante a tentativa de falar com o marido, a mulher de Rafael deixou várias mensagens para um amigo que estava junto dele na viagem.
"Depois ela pediu desculpas para o amigo por estar mandando tantas mensagens, ligando várias vezes, e justificou dizendo 'É que ele é meu tesouro, eu não consigo ficar longe dele. E aí a galera deu risada, e o apelido simplesmente pegou, e todo mundo chama ele assim", revela o jovem.
O corpo de Rafael foi cremado. Agora, João pretende prestar uma última homenagem ao pai: realizar um salto de paraquedas levando as cinzas e espalhá-las sobre a área de saltos de Boituva.
"Pelo propósito do paraquedismo, pelo amor que ele tinha pelo paraquedismo, pela cidade, por tudo o que envolve Boituva, eu acredito que ele gostaria de um 'último salto'", destaca o jovem.
"Tudo que a gente tem veio pelo paraquedismo, então a gente não pode ser ingrato em não querer mais praticar esse esporte. É um esporte radical, é um esporte perigoso, mas a gente precisa ter um respeito ao esporte, agradecer e continuar gostando e olhando para o céu e vendo essas coisas", conclui João.
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