Como Bia Soull transformou a experiência com prostituição em álbum sobre desejo, tabus e liberdade

  • 07/08/2026
(Foto: Reprodução)
Bia Soull durante apresentação na Casa Natura Musical, em São Paulo. Divulgação/@tonyalvves "Pra lançar um trampo foda que vai mudar minha vida / Eu movi minha realidade, pra encontrar a linha do tempo / Onde moldo a minha história", canta Bia Soull na faixa-título do seu álbum de estreia, Pornografia Auditiva. O erotismo que atravessa o disco é a camada mais evidente de uma obra construída a partir de experiências sobre desejo, tabus e liberdade — temas que, para a cantora, começaram muito antes da música. A realidade da artista de 24 anos começou a mudar quando ela deixou Arapongas, no interior do Paraná, para tentar viver de música em São Paulo. Sem dinheiro para bancar esse plano, trabalhou como profissional do sexo até conseguir investir na própria carreira. Hoje, afirma que essa trajetória não é apenas parte da sua história pessoal, mas também da forma como escreve sobre sexualidade. "Não tem como separar uma coisa da outra. É uma história que faz parte de mim", diz a cantora ao receber o g1 na Casa Natura Musical, na Zona Oeste de São Paulo, após finalizar o primeiro show do seu primeiro álbum. "Eu gosto de falar sobre isso porque muita gente passa por situações parecidas e acha que precisa esconder." Bia Soull faz apresentação em São Paulo Antes do início da apresentação, que aconteceu no dia 30 de julho, uma fila se formava na porta da casa de shows. Dentro, uma plateia majoritariamente nascida a partir dos anos 2000 cantava as músicas de cor, registrava trechos com o celular e acompanhava uma apresentação que misturava dança, humor, funk, rap e erotismo. No palco, Bia transformava em espetáculo um conceito que resume o disco: uma "pornografia sem tela". Fora dele, a cantora conta ao g1 como chegou até ali. 🎵 O projeto NOVAS FREQUÊNCIAS, do g1 SP, traz uma série de entrevistas com músicos e produtores de São Paulo que estão explorando gêneros, sons e novas maneiras de criar música na capital. Erotismo com inteligência, desconstrução do funk e 'fuga' de cidade de 35 mil habitantes para viver em SP; conheça d.silvestre Remix com Pabllo Vittar, palco com Charli xcx: conheça CyberKills, dupla que saiu do quarto e invadiu festas pelo país Viver da música Bia começou a fazer música aos 16 anos, quando criou com a mãe o duo de rap Crias MCs. Mas transformar esse sonho em profissão exigia recursos que a família não tinha. "Minha família era muito pobre. Minha mãe sempre acreditou em mim, mas não tinha condições de investir nesse sonho." Para conseguir se mudar de Arapongas para São Paulo e apostar na carreira, ela diz que trabalhou como profissional do sexo. "Comecei a me prostituir porque queria trabalhar com música. Quando cheguei a São Paulo, comecei a frequentar estúdios, conhecer produtores e mostrar meu trabalho." Segundo Bia, essa experiência moldou não apenas sua trajetória, mas também a forma como escreve sobre desejo, autonomia e liberdade. Foi também por meio da mãe que nasceu o nome do álbum. Já em São Paulo, ela trabalhava em uma academia quando um colega com deficiência visual ouviu algumas músicas da cantora e comentou: "Isso é pornografia auditiva. É pornografia para cego". "Quando minha mãe me contou, pensei: 'Esse nome é muito bom'. Primeiro virou uma música. Depois, percebi que traduzia exatamente o conceito do álbum." Disco 'Pornografia auditiva', de Bia Soull. P/U / Divulgação Geração Z e tecnologia Apesar do título provocativo, Bia diz que Pornografia Auditiva não nasceu da vontade de reproduzir a lógica da indústria de conteúdo erótico, com cenas explícitas e hiperssexualização da imagem feminina. A ideia era explorar o caminho contrário: criar cenas eróticas sem depender da imagem. "Eu queria que tudo que eu canto acontecesse na imaginação", diz. Perto de completar 25 anos, em dezembro, Bia ri quando o assunto é idade. "Queria parar nos 22, estaria ótimo", diz. A brincadeira logo dá lugar a uma reflexão sobre a própria geração. Nascida em 2001, ela afirma que foi tentando entender a relação dos jovens com sexo, desejo e tecnologia que encontrou uma das ideias centrais do álbum. "Esses dias eu estava lendo uma pesquisa que dizia que a geração Z é a geração que menos faz sexo. Fiquei pensando muito nisso. A gente está ocupado demais com as telas?" Para Bia, existe uma contradição entre uma geração cercada por estímulos visuais e a possibilidade de criar novas formas de imaginar a intimidade. A proposta, diz ela, se aproxima da experiência da literatura. "Você lê um livro e imagina uma cena. Nas minhas músicas, você escuta e cria uma imagem na cabeça. Eu queria aguçar a criatividade das pessoas." Essa ideia também aparece na sonoridade do álbum. Em vez de se prender ao funk, Bia mistura rap, trap, pop e R&B. Na versão ao vivo, inclusive, ela incluiu batidas de piseiro na música que dá nome ao disco (veja vídeo acima). Para ela, explorar diferentes estilos faz parte da proposta de mostrar que a sexualidade pode ser narrada de muitas formas. Faixas como Menage, Malandro TouchScreen e Preliminares partem de situações íntimas e histórias pessoais para construir esse universo. Segundo Bia, cerca de 90% das músicas são inspiradas em experiências que ela viveu. O restante vem da imaginação: situações que ela gostaria de ter vivido ou que usa para ampliar uma ideia. "90% as coisas que eu vivo, e os outros 10% sou eu dando um temperinho. Penso: 'Eu queria muito que fosse assim...' Foi legal, mas podia ser melhor, sabe? Uso minha criatividade para escrever o que poderia ter sido. Quase que para dar uma dica." Sexo como ponto de partida Embora o sexo esteja presente em praticamente todas as faixas, Bia diz que o disco nasceu para discutir algo mais amplo. Para ela, o erotismo é uma porta de entrada para discutir questões sociais, relações afetivas e os limites impostos sobre a sexualidade. "As pessoas às vezes escutam uma música falando de sexo e param por aí. Mas tem muita crítica social no álbum." Ela cita a faixa Preliminares, em que questiona comportamentos masculinos nas relações heterossexuais. Em outras músicas, aborda prostituição, prazer feminino e tabus ligados à sexualidade masculina. "Sempre falei sobre sexo, mas queria explorar esse tema em diferentes sonoridades. No fim, a sexualidade é uma porta de entrada para discutir várias outras coisas." Show como ponto de chegada Nanda Tsunami participa do show de Bia Soull. Divulgação/@tonyalvves O lançamento de Pornografia Auditiva na Casa Natura Musical foi pensado como um espetáculo dividido em três atos, com participações de Nanda Tsunami, WES, Yuri Redicopa e Matheus Coringa, além de performances de dança e interação com a plateia. Bia diz que o maior medo era não conseguir encher a casa. "A gente pensava: 'Será que vai ter público?'" A resposta veio quando subiu ao palco e ouviu a plateia cantar as músicas do início ao fim. "Quando falaram da fila e depois vi todo mundo cantando, fiquei muito emocionada. Parece que tudo fez sentido." Naquela noite, o verso sobre "mover a realidade" deixou de ser apenas uma letra. Em pouco mais de uma hora de show, virou um resumo da trajetória que levou Bia Soull do interior do Paraná a uma casa de show praticamente lotada em São Paulo.

FONTE: https://g1.globo.com/guia/guia-sp/noticia/2026/08/07/como-bia-soull-transformou-a-experiencia-com-prostituicao-em-album-sobre-desejo-tabus-e-liberdade.ghtml


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