Clarão no céu e fim da guerra: conheça a história da suposta aparição de São Miguel Arcanjo durante a Revolução de 1932
09/07/2026
(Foto: Reprodução) Monte da Aparição: tradição sobre São Miguel Arcanjo atrai romeiros no interior de SP
Era madrugada de 29 de setembro de 1932. Soldados estavam em uma trincheira em uma área de São Miguel Arcanjo, cidade no interior de São Paulo, quando foram surpreendidos por um clarão no céu e um homem avisando que o conflito entre as tropas paulistas havia acabado.
Horas depois, o exército voltou para cidade e, ao entrar na igreja para agradecer o fim da guerra, olhou para a imagem de São Miguel Arcanjo e afirmou: "Foi este homem que nos avisou".
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O conflito em questão foi a Revolução Constitucionalista de 1932, que começou em 9 de julho e foi um movimento armado, liderado pelo estado de São Paulo, que defendia uma nova Constituição para o Brasil e atacava o autoritarismo do Governo Provisório de Getúlio Vargas.
Ao g1, o padre Márcio Almeida, pároco da Basílica de São Miguel Arcanjo e autor do livro "São Miguel Arcanjo: o Santo Guerreiro da Revolução de 1932", explica que a suposta aparição de São Miguel Arcanjo aos soldados ocorreu exatamente no dia em que o arcanjo é celebrado, em 29 de setembro.
"A data faz parte do calendário litúrgico da Igreja Católica, unindo em uma mesma celebração os arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. Então, apesar de não termos nenhuma prova da aparição, a coincidência das datas e os relatos das pessoas envolvidas tornam essa história circunstâncias importantes que consideramos", aponta.
Padre Márcio Almeida, reitor da basílica de São Miguel Arcanjo (SP)
Reprodução/TV TEM
Além dos relatos registrados pelo pároco em seu livro, há um documento que reforça essa narrativa, o que mostra a ordem para interrupção dos confrontos, datado de 29 de setembro de 1932.
"Temos um documento em que o Exército do Sul, ligado ao governo federal, determina a interrupção de todos os confrontos. Esse documento foi emitido no dia 29 de setembro, embora o fim oficial da guerra seja considerado no dia 2 de outubro", aponta.
Ordem para interrupção dos confrontos foi emitida em 29 de setembro de 1932
Basílica de São Miguel Arcanjo/Divulgação
O local onde, segundo a tradição, o arcanjo teria aparecido aos soldados fica a cerca de 20 quilômetros da Basílica de São Miguel Arcanjo, em uma área rural do município. Até 2023, não havia no espaço qualquer marco que indicasse que a história transmitida por gerações teria acontecido naquele trecho de mata. Os únicos vestígios eram duas pedras.
A área integra o sítio da família de Rosana Aparecida de Almeida Oliveira, de 53 anos. Devota de São Miguel Arcanjo, ela conta que não imaginava que o episódio narrado por seus antepassados teria ocorrido tão perto de onde vive.
"Foi muito emocionante para a gente saber que foi aqui. As pessoas já diziam que esse lugar aqui já era diferente, só que não entendiam o motivo, mas sabiam que a guerra tinha acabado por aqui, mas não faziam a associação das duas coisas. Então, quando o padre Márcio contou que era aqui o marco, que é o lugar da aparição, a gente ficou muito feliz."
Monte da Aparição recebeu imagem de São Miguel Arcanjo, instalada sobre uma das pedras
Larissa Pandori/g1
A família cedeu a área à Igreja Católica e, em 29 de setembro de 2023, o espaço foi oficialmente aberto à visitação. Dois anos depois, em 2025, o local recebeu uma imagem de São Miguel Arcanjo, instalada sobre uma das pedras que, segundo a tradição, marcam o ponto da aparição.
Rosana é responsável por abrir diariamente a porteira de acesso ao local, a partir das 8h. Segundo ela, o espaço recebe visitantes durante todo o ano, mas o movimento aumenta significativamente nos meses de agosto e setembro, quando se aproxima o dia dedicado ao santo. Nesse período, o número de romeiros chega à casa dos milhares.
"É muita gente, eu nem consigo ter noção, mas é muita gente, muita gente. Praticamente todo dia tem gente aqui. Eu mesma costumo vir aqui rezar. A gente sente a presença de São Miguel. É bonito", afirma a devota.
No sítio de Rosana, que pertence aos seus familiares há mais de um século, foram encontrados projéteis e outros artefatos que, segundo relatos, seriam da época da Revolução Constitucionalista de 1932.
Rosana Aparecida de Almeida Oliveira, 53 anos, é proprietária do sítio onde ocorreu a suposta aparição de São Miguel Arcanjo e responsável por cuidar do Monte da Aparição
Larissa Pandori/g1
'A fé veio antes da cidade'
O padre Márcio Almeida chegou a São Miguel Arcanjo em 2010. Segundo ele, antes da fundação do município, a região era uma fazenda pertencente a Itapetininga (SP).
Em 1844, o tenente Urias Emydio Nogueira de Barros, morador da Fazenda Velha, foi designado pelo governo para abrir uma estrada de terra que ligasse Itapetininga ao porto de Iguape. A obra impulsionou o desenvolvimento do povoado.
Foi a filha do tenente Urias, Maximina Ubaldina Nogueira Terra, devota de São Miguel Arcanjo, quem pediu ao pai que construísse uma capela dedicada ao santo. Foi a partir daí que começou a devoção, conforme explica o padre.
"Então a fé veio antes da cidade. Primeiro vem a devoção, depois vem a igreja, depois vem a paróquia, depois vem a cidade. A cidade já nasce sob essa devoção. A aparição veio só solidificar algo que já era do povo."
Antiga Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo nos anos 30
Basílica de São Miguel Arcanjo/Divulgação
Conhecido como o Príncipe da Milícia Celeste, São Miguel Arcanjo é apresentado na Bíblia como o defensor do povo de Deus e líder dos exércitos celestiais. Para o padre Márcio, sua figura representa proteção e intercessão, especialmente em momentos de conflito.
"A importância dele para os católicos em tempos de conflito é justamente esse ato de confiança, de saber que você pode contar com um arcanjo enviado por Deus para lhe defender nas batalhas. Batalhas da vida, batalhas espirituais, batalhas reais do mundo. Ele tem esse papel de defensor."
Imagem de São Miguel Arcanjo foi colocada em 2025 no local da suposta aparição
Larissa Pandori/g1
De Matriz a Basílica
Basílica de São Miguel Arcanjo é a única do Brasil dedicada ao padroeiro da cidade
Diocese de Itapetininga/Divulgação
Em 2013, a Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo foi elevada à condição de santuário. Cinco anos depois, em 2018, recebeu o título de basílica e permanece, até hoje, como a única basílica do Brasil dedicada a São Miguel Arcanjo.
Sobre a suposta aparição de São Miguel Arcanjo e sua relação com o fim da Revolução Constitucionalista de 1932, o padre Márcio Almeida afirma que a basílica nunca iniciou um processo canônico para o reconhecimento oficial do episódio. Segundo ele, a Igreja Católica trata o caso como uma tradição local transmitida ao longo das gerações.
"A Igreja Católica trata esse episódio realmente como uma tradição local, algo que foi testemunhado pelos antigos, uma história que se perdurou no tempo. A Igreja primeiro olha para o fato, depois ela escreve, assim nasceu a Bíblia. Então, assim, existe uma história que é contada há mais de 90 anos, que fez parte da vida de muitas pessoas, e isso traz essa credibilidade, mas não existe nenhum reconhecimento oficial da Igreja", aponta o padre Márcio.
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Agora, a cidade se prepara para abrigar a maior imagem sacra do mundo: uma estátua de 57 metros de altura dedicada ao santo.
O monumento integrará o complexo turístico e religioso Gruta do Arcanjo, inspirado no Monte Gargano, na Itália, tradicionalmente associado às aparições de São Miguel Arcanjo.
O projeto também prevê um presbitério para missas campais com capacidade para até 12 mil pessoas, confessionários, gruta mariana, sala de velas, sala de milagres, museu de arte sacra, pavilhão devocional, auditório, praça de alimentação e estacionamento.
"Muitos peregrinos vêm à cidade para viver essa experiência de fé com o arcanjo Miguel", afirma o padre Márcio Almeida.
Imagem de São Miguel Arcanjo está sendo construída no complexo que será utilizado para atividades religiosas na cidade
Larissa Pandori/g1
O conflito no interior paulista
O historiador José Luiz Ayres Holtz, de Itapetininga , explica que a Revolução Constitucionalista de 1932 provocou impactos políticos, econômicos e sociais em Itapetininga, Capão Bonito (SP) e Buri (SP).
"Primeiramente por Itapetininga sediar o comando da Frente Sul, e os municípios de Buri e Capão Bonito por serem palcos das frentes de combate. No caso de Itapetininga, havia ainda o fato de seu filho Júlio Prestes de Albuquerque ter sido eleito presidente do Brasil em 1930, derrotando seu opositor Getúlio Vargas, que, com um Golpe de Estado que depôs o presidente Washington Luís, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes", explica.
Segundo Holtz, os reflexos da revolução também foram sentidos na reorganização política do município, com mudanças na composição do poder local e no cenário partidário.
"Com o fechamento da Câmara Municipal logo após a tomada do poder em 1930 e da indicação de interventores na cidade, antigas lideranças perderam seu lugar para Getulistas. Após o choque da Revolução de 30 e a de 32, que saiu vitoriosa pelo seu objetivo de dar uma nova Constituição ao país, essa contradição também aconteceu com os políticos. Membros da antiga Velha República, por seus interesses, se uniram aos getulistas, criando brigas e polarização nas famílias mais tradicionais de Itapetininga e de sua classe média", detalha.
Para o historiador, além das transformações políticas, a revolução retardou o desenvolvimento da região.
"Assim a Revolução de 1932 consolidou as expecativas, a partir de 1930, de uma paralisação do município, em especial nas áreas política e econômica, atrasando significamente seu projeto de desenvolvimento. Nas cidades da região se destacou o aspecto político, mas também houve perdas de investimento público federal e pela falta de energia elétrica", conclui.
Basílica de São Miguel Arcanjo (SP)
Tiago Ariosi/TV TEM
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