Cantora com deficiência visual usa humor para falar sobre reconhecimento facial e viraliza: ‘Protesto e desabafo’
08/10/2026
(Foto: Reprodução) Cantora com deficiência visual expõe exclusão digital e viraliza
Um piano, uma dose de indignação, uma ideia na cabeça e muito humor. Essa foi a "receita" da cantora, pianista e compositora Mayara Rios de Tatuí (SP), que viralizou nas redes sociais com uma música-protesto sobre o reconhecimento facial.
Deficiente visual, ela mostrou com irreverência como a exclusão digital está presente no dia a dia de muitas pessoas. O vídeo foi postado em 1º de outubro, poucos dias antes das eleições, e soma 1,8 milhão de visualizações, 276 mil curtidas e quase 4 mil comentários.
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A canção nasceu de situações que, segundo Mayara, acontecem com frequência. E nem a Justiça Eleitoral escapou da "brincadeira". Em entrevista ao g1, ela contou que se considera uma pessoa bastante autônoma e que costuma usar o máximo de recursos de acessibilidade nos sistemas e aplicativos do cotidiano.
A primeira situação aconteceu no aplicativo do banco. Ao trocar de celular, ela passou bastante tempo tentando fazer a biometria para liberar o dispositivo. A outra, mais recente, foi no aplicativo e-Título, que ela instalou para justificar a ausência na votação.
Segundo a cantora, no caso do e-Título foi ainda pior, porque o aplicativo dava comandos como "olhe direto pra câmera". Ela aponta uma contradição: se o sistema identificou que a acessibilidade do aparelho está ativada e liberou o comando de voz, é porque está falando com alguém que naturalmente não poderá fazer contato visual com a câmera.
"Um sistema extremamente limitado", aponta.
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A cantora, pianista e compositora Mayara Rios, de Tatuí (SP), viralizou nas redes sociais com uma música-protesto sobre o reconhecimento facial
Arquivo Pessoal
Mayara afirma que as situações citadas na música são só uma parte do problema. Há várias outras, como o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), academias e operadoras de celular.
"Tudo que exige reconhecimento facial pra nós é um problema, pois, aparentemente, o sistema só reconhece um padrão ocular, e obviamente não existe só um", disse.
Depois da publicação do vídeo, ela recebeu relatos de outras pessoas. Entre elas, autistas que não conseguem encarar a câmera, pessoas com deformidades oculares que o sistema não reconhece e pessoas com estrabismo e miopia. Para a cantora, são realidades ignoradas.
Processo criativo
Mayara contou que não esperava tamanha repercussão com a publicação. Formada pelo Conservatório de Tatuí, ela diz que, até então, costumava compartilhar com os seguidores conteúdos relacionados à profissão e pouco falava sobre acessibilidade.
Nos últimos tempos, porém, passou a abordar o tema nas redes sociais e percebeu uma boa receptividade por parte dos seguidores. Foi então que decidiu transformar a experiência em música e compôs a canção. Assista ao vídeo no início da reportagem.
"Como forma de protesto, desabafo e utilizando minha profissão como uma ferramenta de conscientização, e quem sabe, transformação não só da minha realidade, mas de toda a comunidade", afirmou.
Mayara Rios estudou no conservatório de Tatuí (SP). A pianista utilizou a arte para fazer uma crítica a falta de acessiblidade de aplicativos
Arquivo Pessoal
Para Mayara, a contribuição do artista está em usar a arte como ferramenta para ajudar a construir uma sociedade em que todos possam viver melhor. Segundo ela, isso também passa pela conscientização de quem pode promover mudanças, não apenas em relação à acessibilidade, mas em tantos outros temas.
Durante o processo de criação, ela se sentou ao piano e buscou uma melodia e um ritmo que fossem fáceis de assimilar e tivessem apelo popular.
A composição começou pelo refrão, construído a partir da rima entre as palavras “facial” e “visual”. Depois, com o refrão pronto, Mayara escolheu uma modulação harmônica para as estrofes, nas quais relatou as situações de forma irônica.
Ela também recorreu a recursos vocais e harmônicos para prender a atenção do ouvinte, além de repetir o refrão como um gancho. O resultado, segundo a artista, foi bem recebido pelos seguidores e trouxe satisfação.
Mayara Rios e o homem que a auxília na gravação dos vídeos
Arquivo Pessoal
Confira a letra
A letra completa tem composição, piano, voz e arranjo de Mayara Rios, e captação e edição de Regis Bone.
Ai, que legal! Biometria facial...
Só pra ferrar com o deficiente visual!
Eu tava numa boa, troquei de celular,
Entrei no meu banco pra ver quanto tem lá.
"No nosso aplicativo a segurança é total,
Vamos realizar biometria facial!"
Posicione o rosto no círculo!
Vire pra direita!
Vire pra esquerda!
Levante o rosto! Abaixe o rosto!
Abra bem os olhos! Olhe bem pra câmera!
É tempo de eleição, é hora de votar!
Escolher um 'cabra bão' pra me representar.
Instalei o e-Título pra me facilitar...
O que aconteceu, vocês podem imaginar!
Olhe pra direita, olhe pra esquerda,
Levante o rosto, abaixe o rosto,
Abra os olhos, feche os olhos,
Olhe bem pra câmera!
25 anos de música
Mayara tem 25 anos de trajetória na música e 13 de formada. Ela começou aos 9 anos e, segundo conta, nunca mais parou. Entrou no conservatório aos 17, onde estudou canto, piano, teclado e musicografia Braille.
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