Brasil leva à Europa experiências para devolver animais a locais onde desapareceram

  • 17/09/2026
(Foto: Reprodução)
Brasil leva à Europa experiências para devolver animais a locais onde desapareceram Isabela Mascarenhas Projetos brasileiros de reintrodução de espécies e restauração da fauna foram apresentados na quarta Conferência Internacional de Conservação e Translocação, realizada no início de setembro, em Edimburgo, no Reino Unido. A bióloga Vanessa Kanaan, representante do Instituto Fauna Brasil (IFB), participou do encontro, que reuniu profissionais, gestores e pesquisadores para discutir os avanços e os desafios das translocações voltadas à conservação. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Além dos resultados dos projetos, a conferência abordou temas como bem-estar animal, riscos, monitoramento, tomada de decisão e manejo adaptativo. "Primeiro, é importante explicar o que são translocações para conservação. De maneira simples, são ações em que organismos, como animais, plantas e fungos, são movimentados de um local para outro com o objetivo principal de gerar um benefício para a conservação. Elas podem ter diferentes objetivos, como reintroduzir uma espécie em uma área onde foi extinta localmente ou reforçar uma população que ainda existe, mas está reduzida ou vulnerável", explica Vanessa Kanaan. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: COMPORTAMENTO: Caso de homem atacado por morcego-vampiro é descrito pela ciência CARA A CARA COM O LOBO: Morador se surpreende com aparição de lobo-guará durante treino 'EUFORIA': Vespa-cavalo-do-cão é flagrada predando maior aranha do mundo Bugio, papagaio e outros animais ajudaram Com sede em Santa Catarina, o Instituto Fauna Brasil desenvolve projetos desse tipo. O trabalho com o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea) começou em 2010 com o objetivo de reintroduzir a espécie em uma região onde havia sido extinta localmente. A reintrodução está prevista no Plano de Manejo do Parque Nacional das Araucárias. O instituto também trabalha com a reintrodução do bugio-ruivo (Alouatta guariba) na Ilha de Santa Catarina, onde fica Florianópolis, capital do estado. A espécie estava extinta localmente há mais de 260 anos. Mais recentemente, o IFB começou a estudar a viabilidade de translocações de pequenos felinos silvestres dentro de uma estratégia mais ampla de rewilding, ou renaturalização e restauração ecológica da ilha. O intercâmbio proporcionado pela conferência é importante porque as translocações para conservação são processos complexos e de longo prazo. A troca de experiências permite analisar tanto os resultados positivos quanto os aspectos que precisam ser ajustados nos projetos. Planejamento e condução Brasil leva à Europa experiências para devolver animais a locais onde desapareceram Isabela Mascarenhas Na conferência deste ano, Vanessa Kanaan apresentou três trabalhos: dois pôsteres e uma apresentação oral. Apesar de abordarem experiências diferentes, os estudos têm em comum a discussão sobre a forma como as translocações para conservação são planejadas e conduzidas. O primeiro pôster apresentou os 16 anos do projeto de reintrodução do papagaio-de-peito-roxo em uma região onde a espécie estava localmente extinta. O segundo reuniu três iniciativas de reintrodução no Brasil e mostrou como a experiência acumulada em diferentes projetos pode contribuir para novas decisões. Ilha de Santa Catarina Já a apresentação oral abordou o processo desenvolvido na Ilha de Santa Catarina, da defaunação à refaunação. O trabalho utilizou a reintrodução do bugio-ruivo e os estudos de viabilidade para a reintrodução de pequenos felinos para mostrar como uma translocação pode produzir evidências que auxiliem no planejamento da próxima. Brasil leva à Europa experiências para devolver animais a locais onde desapareceram Isabela Mascarenhas A ilha perdeu diferentes espécies ao longo de sua história e, atualmente, a existência de áreas protegidas cria oportunidades para restaurar parte dessa fauna e das funções ecológicas perdidas. "Existe ainda uma oportunidade muito importante de integrar bem-estar animal e conservação. Muitos animais silvestres chegam aos processos de reabilitação como consequência direta ou indireta de ações humanas. Quando tecnicamente adequado, avaliar esses animais para translocação pode representar uma oportunidade não apenas para que retornem à vida livre, mas também para contribuir com a recuperação de espécies e com a restauração de funções ecológicas em locais onde elas desapareceram. Essa foi justamente uma das conexões que apresentamos a partir da experiência com os bugios", comenta Kanaan. Segundo a bióloga, os trabalhos brasileiros foram bem recebidos e geraram discussões ao longo do congresso. Muitos dos desafios enfrentados em Santa Catarina também fazem parte da realidade de projetos de translocação em outros países. A conferência, no entanto, também deixou inquietações. Uma delas, segundo Vanessa, é perceber o quanto o Brasil ainda está atrasado em algumas discussões sobre translocações para conservação. "É uma ciência relativamente nova e existe, naturalmente, uma linha mais conservadora que entende que os riscos dessas intervenções podem ser maiores do que os benefícios. Essa discussão é legítima e necessária, porque translocações envolvem riscos e precisam ser conduzidas com responsabilidade. O problema é que hoje, no Brasil, muitas vezes acabamos convivendo com dois extremos. De um lado, ainda acontecem solturas sem planejamento, recursos, monitoramento ou critérios técnicos suficientes, muitas vezes como uma tentativa de dar uma resposta a um problema gigantesco que temos no país, a destinação de animais silvestres vítimas de ações humanas", desabafa Vanessa Kanaan. Barreiras Por outro lado, projetos estruturados, com recursos, planejamento, embasamento científico e compromisso de longo prazo, também podem enfrentar resistência, burocracia e dificuldades para obter autorizações. Nos dois casos, existem riscos. Uma soltura sem os cuidados necessários pode comprometer o bem-estar dos animais, provocar impactos indesejados e até descredibilizar as translocações como ferramenta de conservação. "Existe também uma diferença de velocidade que me inquieta muito. As ameaças à biodiversidade acontecem rapidamente, perda e fragmentação de habitat, mudanças climáticas, atropelamentos, conflitos com pessoas e animais domésticos e tantas outras pressões. Enquanto isso, nossas tentativas de recuperação e restauração muitas vezes avançam muito mais lentamente do que poderiam. Precisamos de responsabilidade e cautela, mas também precisamos desenvolver a capacidade de agir, monitorar, aprender e adaptar", complementa Vanessa Kanaan. Veja o que é destaque no g1: Agora no g1 A pesquisadora ressalta que não defende menos rigor. Segundo ela, translocações para conservação exigem planejamento, avaliação de riscos, critérios sanitários, genéticos e comportamentais, além de monitoramento e acompanhamento de longo prazo. O que a preocupa é quando o rigor é confundido com a necessidade de eliminar toda a incerteza antes de tomar uma decisão. A incerteza faz parte desse tipo de projeto, já que o trabalho envolve sistemas naturais complexos e não permite o controle de todas as variáveis. Por isso, uma das abordagens é reconhecer essas incertezas, avaliar os riscos com as melhores evidências disponíveis, monitorar os resultados e adaptar o manejo à medida que novas informações surgem. Ao voltar ao Brasil, Vanessa pretende compartilhar com a equipe do Instituto Fauna Brasil os resultados das apresentações dos projetos desenvolvidos em Santa Catarina. "A primeira coisa que eu quero levar para a equipe é justamente essa sensação que eu trouxe do congresso: estamos no caminho certo. Mesmo com muitos questionamentos que recebemos no Brasil, mais em alguns projetos do que em outros, foi muito importante perceber que a maneira como estamos pensando e construindo nossos projetos está alinhada com o que vem sendo discutido e praticado internacionalmente", aponta a bióloga. Brasil leva à Europa experiências para devolver animais a locais onde desapareceram Isabela Mascarenhas Vanessa também destaca a participação da equipe de biólogos, voluntários, parceiros, instituições e patrocinadores que tornam os projetos possíveis. "Depois de tantos anos trabalhando com reintroduções, continuo aprendendo que precisamos ter coragem para agir e humildade para reconhecer as incertezas, aprender com os resultados e mudar quando for necessário. Conservação não acontece em condições perfeitas e, diante da velocidade com que estamos perdendo biodiversidade, precisamos encontrar maneiras responsáveis de transformar conhecimento em ação", completa Vanessa Kanaan. Além de integrar o Instituto Fauna Brasil, Vanessa faz parte do Conservation Translocation Specialist Group (grupo de especialistas em translocação e conservação). Para a bióloga, o Brasil, com sua biodiversidade e profissionais capacitados, precisa fazer esse conhecimento circular e contribuir para o debate internacional sobre o tema. "Volto com a responsabilidade ainda maior de ajudar a aproximar essas discussões internacionais da nossa realidade e, ao mesmo tempo, mostrar ao mundo o que estamos aprendendo e construindo aqui". VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/09/17/brasil-leva-a-europa-experiencias-para-devolver-animais-a-locais-onde-desapareceram.ghtml


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