A menor ave do planeta e quase 100 'joias': expedição revela fotos incríveis em Cuba
07/04/2026
(Foto: Reprodução) Detentor do título de menor ave do mundo, consagrado pelo Guinness World Records, os machos do Bee Hummingbird pesam menos de 2 g
João Quental
O desejo de conhecer Cuba já acompanhava o fotógrafo de natureza João Quental há anos. Não apenas pelas aves – abundantes e únicas – mas também pela história e pela cultura de um país marcado por contrastes.
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Em janeiro, ele decidiu transformar essa vontade em realidade. Ao lado da esposa, Raffaella, embarcou para a ilha em um momento delicado: chegaram a Havana, praticamente, juntos ao último navio de combustível enviado pelo México em meio ao agravamento da crise no país.
Papagaio-cubano (Amazona leucocephala)
João Quental
A viagem, além de desafiadora, revelou uma Cuba pouco conhecida, onde a escassez, paradoxalmente, também contribui para a preservação de ambientes naturais.
A expedição se concentrou na região central e sul da ilha, especialmente na Baía dos Porcos, em Matanzas, uma área que ainda mantém trechos relativamente preservados.
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Corujinha-cubana (Glaucidium siju)
João Quental
“Como a ilha passou por um processo intenso de monocultura, principalmente de açúcar, uma parte expressiva do ambiente foi completamente modificada. Mas essa região ainda manteve áreas de mata, mangues e savanas que abrigam uma boa diversidade de aves”, explica.
Ali, entre manguezais, savanas e fragmentos de mata, João encontrou um mosaico de habitats que abriga uma rica diversidade de aves. Um dos pontos altos foi a visita à Ciénaga de Zapata, o maior pântano do Caribe, onde a abundância de vida impressiona: flamingos, garças, pelicanos e maçaricos dominam a paisagem.
Flamingo (Phoenicopterus ruber)
João Quental
Quase 100 espécies e encontros inesquecíveis
Ao longo da viagem, João Quental conseguiu observar e fotografar cerca de 100 espécies residentes, além de diversas aves migratórias.
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Entre os principais objetivos estavam algumas das espécies mais emblemáticas da ilha – e todas foram encontradas:
Trogon-cubano ou tocororo (Priotelus temnurus): ave nacional de Cuba, com cores que remetem à bandeira do país, é endêmica do arquipélago e ocorre em áreas florestais por toda a ilha, incluindo a Isla de la Juventud. Costuma nidificar em cavidades de árvores, muitas vezes reutilizando buracos feitos por pica-paus;
Trogon-cubano ou tocororo (Priotelus temnurus)
João Quental
Colibri-abelha-cubano ou Zunzunzito (Mellisuga helenae): a menor ave do mundo, com menos de 2 gramas, é endêmica de Cuba e ocorre em áreas específicas da ilha, especialmente em regiões como a Ciénaga de Zapata. Sua presença está diretamente ligada à disponibilidade de flores, já que se alimenta principalmente de néctar;
Colibri-abelha-cubano ou Zunzunzito (Mellisuga helenae)
João Quental
Zunzún (Riccordia ricordii): beija-flor comum e amplamente distribuído em Cuba, presente em praticamente qualquer ambiente com vegetação, de áreas naturais a regiões urbanas. Também ocorre em algumas ilhas das Bahamas e pode se reproduzir ao longo de todo o ano;
Zunzún (Riccordia ricordii)
João Quental
Toda-cubana ou Cartacuba (Todus multicolor): pequena ave colorida e carismática, endêmica de Cuba e relativamente abundante em diferentes habitats da ilha. Costuma viver em áreas arborizadas e faz ninhos em túneis escavados em barrancos ou solos argilosos.
Toda-cubana ou Cartacuba (Todus multicolor)
João Quental
Espécies únicas e ameaçadas
A expedição também proporcionou registros importantes de espécies endêmicas e ameaçadas. Um exemplo é a carriça-de-Zapata (Ferminia cerverai), restrita ao pântano de Zapata, costa sul da ilha, e considerada globalmente ameaçada. Discreta, vive escondida na vegetação densa e é mais fácil de ouvir do que de ver.
Carriça-de-Zapata (Ferminia cerverai)
João Quental
Além dela, João registrou a corujinha-cubana (Glaucidium siju), uma das espécies mais comuns da ilha e frequentemente ativa durante o dia, encontrada em áreas de floresta semiaberta; e o papagaio-cubano (Amazona leucocephala) – considerado quase ameaçado –, um psitacídeo de coloração marcante que ocorre em Cuba e em ilhas próximas, mas sofre com a perda de habitat e o tráfico ilegal.
Também foram fotografados o cuco-lagarto (Coccyzus merlini), ave de grande porte e hábito oportunista, que se alimenta desde insetos até pequenos vertebrados, como lagartos e anfíbios; e o pica-pau-das-Índias-Ocidentais (Melanerpes superciliaris), espécie vistosa e vocal, comum em áreas com palmeiras, onde encontra locais ideais para nidificação.
Pica-pau-das-Índias-Ocidentais (Melanerpes superciliaris)
João Quental
Espécies migratórias marcaram presença, como os toutinegras (warblers) do gênero Setophaga, que pertence à família Parulidae, reforçando a importância de Cuba como corredor ecológico entre continentes.
Entre eles, estão: mariquita-azul-de-garganta-preta (Setophaga caerulescens), mariquita-azul (Setophaga americana), mariquita-de-garganta-amarela (Setophaga dominica) e mariquita-de-rabo-vermelho (Setophaga ruticilla).
“Cuba é uma rota importante para as chamadas 'mariquitas', pequenos passeriformes vindos da América do Norte”, conta Quental.
Espécies migratórias do gênero Setophaga
João Quental/Arte TG
Natureza, escassez e acolhimento
Mais do que a biodiversidade, a relação dos cubanos com a natureza chamou a atenção do fotógrafo.
“Existem parques nacionais e algumas iniciativas privadas, mas fica claro que eles sofrem com a falta de recursos, como aliás tudo no país”, observa Quental.
Cuco-lagarto (Coccyzus merlini)
João Quental
“A escassez de combustível e recursos, de certa forma, reduz a pressão humana sobre o meio ambiente. A população acaba sendo, de certo modo, obrigada a ser ecologicamente correta”, completa.
A Ciénaga de Zapata, localizada na província de Matanzas, no sul de Cuba, é a maior e mais bem conservada zona húmida das Antilhas, estendendo-se por cerca de 300.000 a 500.000 hectares
Francisco Puertas/Wikimedia Commons
Segundo Quental, a experiência em Cuba revela um destino singular para a observação de aves: uma ilha que, apesar das transformações históricas e desafios atuais, ainda guarda importantes refúgios de biodiversidade.
Para ele, a expedição foi mais do que uma jornada fotográfica.
“Foi um encontro com uma natureza resiliente e com um povo que, mesmo diante das dificuldades, mantém uma relação próxima e colaborativa com o ambiente ao seu redor”.
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